‘The Killer Inside Me’ por Bruno Marques

(Fotos: Divulgação)

Provavelmente o público feminista ficará horrorizado com o comportamento machista de Lou Ford, a personagem de Casey Affleck em “The Killer Inside Me’, dirigido pelo britânico Michael Winterbottom.  Já as fetichistas compactuarão da mesma admiração que as personagens de Kate Hudson e Jessica Alba (namorada e amante, respectivamente) nutrem pela personagem dessa história Baseada no livro homónimo de 1952, escrito por Jim Thompson, sobre um xerife psicopata que abusa da violência, principalmente, contra mulheres.
Tudo começa quando ele se envolve com a prostituta Joyce Lakeland (Alba), amante de um poderoso empresário da pequena cidade onde vive. O casal possui em comum o gosto pelos prazeres do sexo violento. Paralelamente, o policia descobre o envolvimento do amante de Joyce na morte do seu irmão adoptivo. Com o intuito de se vingar, Lou usa a moça como isca e executa o filho do empresário. Após o crime, o xerife passa a cometer outras mortes como forma de esconder o primeiro homicídio, porém, gradativamente, descobre que as suas motivações em matar estão muito além do receio de ir para a prisão.
Quem teve a oportunidade de assistir ao clássico “ A Sangue Frio”, adaptação do Best-seller de Trumam Capote, irá encontrar muitas semelhanças entre as duas películas. Principalmente pelo facto de contarem com protagonistas repulsivos, contudo, apresentados como sofredores de uma doença incurável, que os motiva a matar sem sentir remorso.

A opção de justificar os crimes cometidos por Lou para uma discussão patológica tenta extrair sentimentos de piedade do público para com o protagonista – isso fica claro quando é apresentado a relação entre Lou e sua mãe -, o que acaba confrontando o espectador com seus próprios conceitos morais, assim como Michel Haneke realizou em “Benny’s Video” e “Funny Games”.

O poder da narrativa escolhida pelo realizador investe em causar aproximação entre o assassino e o público. Tanto que a história é contada a partir do ponto de vista da personagem, deixando-nos posição privilegiada da rede de relacionamentos de Lou. Dando a quem assiste o “privilégio” de conhecer a fundo o assassino que mora dentro do policia.

Essa opção de colocar o espectador em posição contrária as leis dos bons costumes não é nenhuma novidade. Basta lembra que Stanley Kubrick fez o mesmo em “A Laranja Mecânica” e hoje é cultuado pelos quatro cantos do mundo. A resposta para tamanha admiração talvez esteja presente no assassino que existe dentro de todos nós e que encontra no cinema uma forma de se revelar.

Goste ou não, o certo é que é absolutamente impossível ficar indiferente ao humor sádico de ” The Killer Inside Me “. Sem dúvida o tempo irá amenizar a repulsa que grande parte do público sentiu quando a produção foi apresentada em festivais em todo o mundo. Quando esse dia chegar, os mesmos que hoje acusam a longa-metragem de fazer apologia à violência estarão rindo com todos os dentes ao assistir os crimes bárbaros de Lou Ford, se deleitando enquanto o sangue jorra para fora da tela, assim como aconteceu quando o clássico de Kubrick foi lançado.

Crítica publicada durante o festival de cinema de São Paulo
Bruno Marques

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