Soa, no mínimo, curioso que a passagem de Blood Countess (Die Blutgräfin), da audaz Ulrike Ottinger — realizadora de Paris Calligrammes (2020) e Johanna D’Arc of Mongolia (1989) — pela 76.ª Berlinale coincida com a circulação norte-americana de Dracula: A Love Tale (2025), de Luc Besson, um fracasso épico que tenta recuperar prejuízos nos Estados Unidos. São dois filmes de vampiros estilizados, forjados por artesãs autorais que refletem sobre a moda e os costumes do seu tempo, num jogo ambíguo entre um certo academismo norte-americano e a vanguarda europeia. O resultado são objetos fílmicos anfíbios, entre o videoclipe, o Cinema, a ópera e a instalação.

Ulrike é menos kitsch e mais próxima do registo documental, mas o seu novo trabalho é uma alegoria delirante, sem medo do excesso, que se destaca por um figurino capaz de deixar Hollywood rendida ao guarda-roupa concebido por Jorge Jara. À opulência dos trajes junta-se a maquilhagem exuberante de Tünde Kiss-Benke e um design de produção, assinado por Christina Schaffer, que remete para uma casa de bonecas. O engenho simultaneamente excêntrico e belo que se coloca diante da câmara — na direção de fotografia de Martin Gschlacht — garante um tom fabular a um terrir que inquieta. É um filme de vampiros… mas divertido… mais próximo do cabaré, com canto e sensualidade ao serviço de uma crónica de costumes, do que do expressionismo. Ainda assim, a realizadora, sempre atenta aos nós morais no turbilhão da História europeia, não parece ter ressuscitado a lenda da condessa assassina Erzsébet Báthory (1560-1614) — num momento de ascensão da extrema-direita alemã — por mero capricho cinéfilo.

Erzsébet é a contraparte feminina de Vlad Tepes, o Drácula: uma aristocrata acusada de se banhar em sangue de virgens. A sua lenda continua a assombrar crianças e adultos. Escolher Isabelle Huppert para o papel é garantia de austeridade. E a atriz mantém essa nobre bebedora de sangue austera do início ao fim de Blood Countess, mesmo quando um clima de farsa toma conta da produção, que reúne nomes maiores do Cinema austríaco e alemão, com destaque para o brilhante Lars Eidinger. O público não teme a Báthory de Huppert. Teme antes o mundo que necessita dela como símbolo de descontrolo, sobretudo económico. Recorde-se que Nosferatu (1922), de Friedrich Wilhelm Murnau, foi reflexo da I Guerra Mundial e das suas consequências devastadoras para a economia alemã — e também um prenúncio sombrio do que viria a ser o III Reich.

Não por acaso, Erzsébet menciona Hitler entre os seus conhecidos, numa narrativa situada na Viena contemporânea, mas que evoca a Áustria dos anos 1920. Ali, a condessa sanguinária e a sua fiel criada Hermine (Birgit Minichmayr, irresistível) tentam evitar o colapso do seu império, sob ameaça de investigação policial. Após décadas de vida noturna clandestina, embarcam numa caça desenfreada por sangue fresco e por um livro misterioso capaz de destruir todo o Mal. Para isso, Erzsébet recruta o melancólico sobrinho vegetariano, o Barão Rudi Bubi (Thomas Schubert), cuja sofisticação se revela útil na cruzada. Entre banquetes de morcelas e cabeças de boi, o psicoterapeuta freudiano Theobald Tandem (Eidinger) ajuda a vilã a perseguir os seus sonhos. Ou quase.

O enredo provocador, desenvolvido numa estrutura dramatúrgica de deboche e autoparódia, convoca inevitáveis alusões a The Fearless Vampire Killers or: Pardon Me, But Your Teeth Are in My Neck (1967) e ao Cinema de série B — ou mesmo de autor, como Immoral Tales (1974), de Walerian Borowczyk — que já explorou a mitologia de Erzsébet. Sob o mito, Blood Countess oferece uma lição de geopolítica sobre um planeta em crise. Uma lição saborosa, que perde algum ritmo na segunda metade, mas preserva o dinamismo. Isabelle Huppert, a alternar entre francês e alemão, reinventa-se uma vez mais sem abdicar da aura de diva. A sua entrada em cena, nos minutos iniciais, impõe-se com uma potência rara.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
blood-countess-geopolitica-em-versao-terrirUma lição saborosa, que perde algum ritmo na segunda metade, mas preserva o dinamismo. Isabelle Huppert, a alternar entre francês e alemão, reinventa-se uma vez mais sem abdicar da aura de diva.