Vendido como thriller — como o seu material de base, o livro de Freida McFadden, o era — A Criada (The Housemaid, 2025), assinado por Paul Feig, apenas no último terço, e de forma muito breve, dá sinais disso. Até lá, o espectador, tenha ou não lido o livro, é confrontado com um daqueles filmes derivativos dos anos 90, ao estilo Jovem Procura Companheira (Single White Female, 1992), A Mão Que Embala o Berço (The Hand That Rocks the Cradle, 1992) ou Dormindo com o Inimigo (Sleeping with the Enemy, 1991), sujeitos a uma lavagem geracional marcada pelo melodrama pastelão, erotismo sensaborão e uma objetificação artificial.
A rasgar esse marasmo, de forma camp, o sismógrafo da tensão apenas desperta com as explosões de fúria descompensadas de Nina (Amanda Seyfried), uma mulher que vive com o marido, Andrew (Brandon Sklenar), e a filha pequena, Cece (Indiana Elle), numa mansão aparentemente imaculada. É Nina quem contrata, sem o conhecimento do esposo, Millie (Sydney Sweeney), uma jovem problemática que vive no seu carro e que desespera por um emprego.
Após uma entrevista inicial, Millie passa a viver com o casal num pequeno quarto no sótão da casa, onde o único outro empregado é Enzo (Michele Morrone), uma figura silenciosa e atmosférica que parece desconfiar da sua presença. O que começa como um emprego de sonho transforma-se rapidamente em pesadelo quando os acessos de fúria da patroa revelam que nem tudo é tão perfeito como inicialmente se antevia. E, a cada explosão emocional de Nina, Millie aproxima-se de Andrew, num jogo de tensões previsível e mecanizado que sacrifica sistematicamente a profundidade emocional e a subtileza narrativa em favor do espectáculo e reviravoltas viscerais.
Onde o livro construía um crescendo de suspense a partir do não dito — fazendo o leitor descobrir as coisas tarde demais, em sintonia com a personagem — o filme opta por revelações cortantes, exageradas e estilizadas, que não concedem tempo nem espaço para explorar com densidade os elementos psicológicos em jogo, nomeadamente um brutal exercício de gaslighting (termo que se popularizou após o filme Gaslight de 1944), bem como os temas de classe ou a crítica social que apenas esboça através de personagens cartunescas como a mãe de Andrew e as amigas de Nina.

Paul Feig, um dos cineastas americanos mais sobrevalorizado da modernidade, que apenas em Um Pequeno Favor deixou entrever um pequeno estado de graça, conduz The Housemaid por um conjunto de opções que, aliadas à montagem de Brent White, marcada por cortes abruptos e constantes variações de tom, acabam por comprometer de forma decisiva qualquer verdadeiro mergulho no sentimento de paranoia interna. O filme explica demasiado e trata as reviravoltas como eventos isolados em vez de culminações naturais da tensão. Nisto, o ritmo oscila de forma irregular, alternando trechos mornos e cheesy com explosões súbitas que carecem de sustentação dramática.
Para esse desequilíbrio, não ajuda Brandon Sklenar surgir como um canastrão decorativo, uma presença vazia que parece saída de um catálogo de moda dirigido à classe média-alta, enquanto Sydney Sweeney aposta numa composição excessivamente demonstrativa, incapaz de deixar espaço para ambiguidade ou subtexto. Feig sublinha a objetificação corporal de ambos, transformando-os em matéria-prima para a pirosice, num quase wannabe As Cinquenta Sombras de Grey (Fifty Shades of Grey, 2015), de erotismo artificial, higienizado e protocolar, muito mais próximo de fantasia publicitária do que de qualquer lógica carnal.
E mesmo quando Millie aparenta emancipar-se perante o caos que a rodeia, Feig prefere recorrer a um conjunto de frases feitas para materializar um renascimento e a assunção de uma nova vida, sugerindo, como um martelo pneumático, uma continuidade da franquia.
No meio desta dupla plastificada, apenas Amanda Seyfried — ainda que claramente em modo piloto automático — consegue captar de algum modo a atenção do espectador, oferecendo ao filme os seus raros momentos de inquietação genuína, mesmo quando a sua ação se revele excessivamente explicativa e palavrosa.
Somando (e principalmente subtraindo) todas as partes, The Housemaid revela ser sempre incapaz de se elevar acima de uma peça de alienação escapista, ruidosa e descartável, que prefere o choque imediato à inquietação duradoura e que, por isso mesmo, se esgota quando termina a projeção.




















