Numa pequena localidade Croata onde o colocar sacos de areia parece ser um penso rápido para travar uma inundação por parte do cada vez maior caudal de um rio, dois jovens sentem cada vez maior dificuldade em manter em si uma paixão que ameaça também ela transbordar e afetar todos os que vivem no lugarejo.
Coming-of-age queer em terrenos ruralizados e conservadores, tal como vimos no ano passado em “Three Kilometers to the End of the World“, onde um pequeno riacho servia de guia para espaços com a mente mais aberta, “Sandbag Dam”, exibido na Generations da Berlinale, regressa a um tema comum do cinema queer do novo milénio, apresentando personagens esmagadas por ambientes homofóbicos e opressivos, que vão mantendo um mundo de aparências para escapar a julgamentos.
Mas, ao contrário do que é habitual neste género de filmes, por aqui não vemos o início de uma paixão ou uma qualquer descoberta sexual. Na verdade, partimos de um ponto intermédio em que Slaven (Andrija Žunac) regressa à localidade onde vivia no passado e foi expulso depois de ter sido apanhado com Marko (Lav Novosel) num momento de intimidade. Três anos passaram desde esse momento e muita coisa mudou: o pai de Slaven, que o expulsou para Berlim, morreu, e Marko, uma figura importante pela presença desportiva em campeonatos de braço de ferro, que alegadamente aumentam o seu status de “masculinidade” na região, agora namora com uma jovem, Petra (Franka Mikolaci).
Progressivamente, e à medida que os dois recomeçam a interagir, o rio da paixão que os preenche começa a transbordar, deixando, mais uma vez, a mãe de Marko, Vanča (Tanja Smoje), num campo de oposição a um relacionamento homossexual do filho. Mais recatado, o pai de Marko, Franjo (Filip Šovagović), que o treina para os campeonatos de braço de ferro, mantém uma posição mais críptica, cabendo-lhe um dos momentos de clímax do filme, quando, após uma altercação de Marko com um rapaz da aldeia que parodiou a sua homossexualidade, lhe diz que “não criou um filho para que ele andasse em cenas de pancadaria nos bares“.
Objetivamente, esta nova incursão nas longas-metragens de Čejen Černić Čanak, depois de “The Mystery of Green Hill”, a partir de um guião do dramaturgo Tomislav Zajec, não é um filme que acrescente algo de novo (ou seja verdadeiramente inovador), nem no discurso e modelo de história de amadurecimento queer em localidades pequenas, fechadas e homofóbicas, nem no modelo de “amor proibido” que faz tanto sucesso na literatura e cinema desde sempre (pense-se em Shakespeare, por exemplo). Porém, a forma atenta como a cineasta desenvolve o reaproximar entre Marko e Slaven, mais baseada em gestos e expressões do que em palavras, dão ao filme uma potência sensorial muito particular, o que o torna de certa maneira único – na sensibilidade e tom – num rio já alagado e transbordante de propostas semelhantes.



















