Existe algo muito “turco” neste terceiro filme do romeno Emanuel Parvu. Nos últimos anos, mesmo sobre o olhar de Erdogan, o cinema otomano tem dedicado bastante atenção aos conflitos entre as gentes conservadoras das localidades rurais em oposição a um maior liberalismo nas cidades. Associado a isso, vários filmes têm abordado as reações adversas a qualquer indício de homossexualidade nessas áreas. Pegando apenas em dois exemplos de filmes que tocam nesses temas, mas não se encerram neles, temos “Burning Days” de Emin Alper e “Black Nights” de Ozcan Alper. Ambos decorrem em espaços presos no tempo, nas tradições e em conceitos morais e imorais arcaicos, que frequentemente contrariam as leis e procedimentos policiais nacionais. Além disso, questões de classe e um ambiente minado pela pequena corrupção e troca de favores imperam. Tudo isto pode ser colado a “Three Kilometers To The End Of The World”, em competição no Festival de Cannes, um filme que na tradição da Nova Vaga Romena ataca questões sociais e políticas, mas que esteticamente segue uma direção mais clássica.

Adi (Ciprian Chiujdea) é um jovem de 17 anos que passa o verão com os pais numa aldeia à beira do delta do Danúbio. Uma noite, vêmo-lo a sair de um bar com alguém, a beijar as suas mãos. A imagem seguinte leva-nos a ele já com as marcas no corpo de um selvático espancamento. O primeiro a ver o estado do rapaz é o pai, que indignado segue imediatamente com ele para a esquadra. Começa a investigação e as pistas e testemunhos são tímidos. Para piorar, Adi não reconheceu ninguém. Pai e polícia partem para a investigação, descobrindo-se que o crime foi cometido por alguém da cidade muito bem relacionado com as autoridades locais e nacionais.

Os eventos ganham cada vez mais um efeito bola de neve e chegamos à descoberta da homossexualidade de Adi, que a maioria quer abafar por temer as consequências para a família (a marginalização) e para a aldeia (teme-se que a aldeia seja invadida pela “malta” da Gay Pride). E esse “esconder” parte mesmo de dentro de casa do rapaz, com mãe e pai, que inicialmente são apresentados como extremosos e ternurentos, a cercarem o filho com proibições. O encerramento dele em casa é real, chegando-se ao ponto de o amarrar e levar para junto do padre para retirar deles as ideias pecaminosas. A escalada da situação fica descontrolado e, sem que ninguém o previsse, até uma agência de proteção de menores chega à pacata localidade, deixando a polícia local em apuros.

Parvu filma tudo com calma e destreza, num ambiente de tensão e ebulição permanente, abrindo e fechando portas a qualquer tipo de resolução fácil, lançando no processo uma série de dilemas, onde até o humor consegue dar um ar da sua graça no meio do caos e drama.

Vistas as coisas, “Three Kilometers To The End Of The World” revela-se fundamental na tradição dos filmes que colocam em oposição campo e cidade, o tradicional e o moderno, sem nunca se render ao exploratório. E o plano final do filme, quando saímos de um veio do rio e entramos no seu caudal por inteiro, diz tudo quanto ao abrir de horizontes e mentes quando se sai destes locais.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
three-kilometers-to-the-end-of-the-world-parados-no-tempo-e-tradicoes“Three Kilometers To The End Of The World” revela-se fundamental na tradição dos filmes que colocam em oposição campo e cidade, o tradicional e o moderno, sem nunca se render ao exploratório