Redescobertas pela cultura pop depois da publicação da minissérie em BD “The Last Ronin”, de Kevin Eastman, Tom Waltz e Peter Laird, as Tartarugas Ninja nasceram nos comics em 1984, a partir de uma ideia de misturar a febre dos guerreiros marciais orientais na cultura pop de então com pizza. A iguaria arredondada, coberta de queijo, é a fonte nutricional básica dos quelónios Raphael, Donatello, Michelangelo e Leonardo, batizados em tributo a ícones das artes visuais, que ganharam um novo destaque na indústria cultural ao se transformarem em action figures em 1987.
Naquele mesmo ano surgiu uma série de desenhos animados que dava um tratamento mais infantojuvenil a um universo que nasceu alternativo, na seara indie da banda desenhada americana, longe do padrão Marvel ou DC. Uma mescla desse tom maroto (malicioso) de outrora com o bom-trato do seriado televisivo para crianças dá um tom ao mesmo tempo lúdico e pícaro à nova adaptação cinematográfica do quarteto de casco. “Caos Mutante”, que no original é “Teenage Mutant Ninja Turtles: Mutant Mayhem” é uma alucinante combinação de trilhas aventurescas do cinema comercial americano da década de 1980 (vide “Big Trouble in Little China”) com programas animados de TV contemporâneos, como “Big Mouth”. Mas o que mais se destaca na longa-metragem de Jeff Rowes e Kyler Spears é a direção de arte. Na animação industrial dos anos 2020, poucas narrativas combinam uma variante de traços tão ampla com tamanho equilíbrio na sua identidade visual.
Orçado em 70 milhões de dólares, o filme é uma produção da Nickelodeon Movies e Point Grey Pictures que deve boa parte do seu bom humor ao engajamento do ator Seth Rogen ao projeto de revitalizar a grife das Tartarugas. Ele assina o guião (dando ao script uma abrasividade autoral bem particular) e participa da produção. A deliciosa menção ao filme de culto “O Rei dos Gazeteiros” (no Brasil, “Curtindo a Vida Adoidado”), com Ferris Bueller a dançar ao som dos Beatles.
Na trama, as Tartarugas assistem à dança de Ferris, na projeção do filme de John Hughes num cinema, e suspiram com a possibilidade de ter uma vida adolescente como a de qualquer humano, deixando o esgoto onde vivem para trás. Os quatro foram geneticamente modificados ao comerem uma gosma repleta de mutagénicos. O mesmo aconteceu com o rato Splintler (Jackie Chan, num brilhante trabalho vocal), que adotou as tartarugas e decidiu educá-los. Esse desejo dos ninjas, por levar uma rotina de estudante de liceu, faz com que se aproximem de uma estudante aspirante a jornalista, April O’Neill (na voz de Ayo Edebiri). Ao mesmo tempo, eles encaram um monstro com feições de mosca, mais assustador do que Jeff Goldblum em “The Fly”, cujo objetivo é transformar todos os humanos em mutantes. Cabe a Raphael, Donatello, Michelangelo e Leonardo conter os zumbidos desse vilão.
Essa peleja é narrada com litros de adrenalina, mostrando as Tartarugas como aprendizes de heróis, errando a cada tentativa, acertando uma vez ou outra. É um ensejo dramatúrgico que aproxima “Mutant Mayhem” do brilhante “The Batman”, de Matt Reeves. Mas Rogen toma o cuidado de não deixar a afetividade se diluir, transformando o enredo num debate sobre aceitação, pertencimento e paternidade. Os orégãos desta pizza vieram na medida certa.



















