Dos muitos hinos ultrarromânticos que embalaram o cancioneiro popular no esforço de traduzir o desamparo afetivo, poucos se esparramaram de maneira tão uniforme por uma sociedade tão cheia de contradições como “Aparências” de Márcio Greyck. O seu verso mais conhecido: “Aparências, nada mais, sustentaram as nossas vidas, que apesar de mal vividas têm ainda uma esperança de poder viver”.
Não existe nada mais Márcio Greyck em cartaz nos cinemas, num ano em que as franquias outrora sólidas desmancham-se no ar, do que o novo “Mission: Impossible”, não puramente pela carga afetiva que cerca a sua principal personagem, o mestre em disfarces Ethan Hunt, mas pelo facto de o filme novo de Christopher McQuarrie resgatar o espírito demolidor que havia no filme inaugural da saga, lançado em 1996, por Brian De Palma, e assumir a conceito de “aparência” como alvo. É, sim, uma narrativa com uma carga afetiva de amor romântico (Rebecca Ferguson, sempre esplêndida, é a responsável por isso), mas existe também o tom de buddy love, o companheirismo, que é colocado na berlinda num eficaz (e abrangente) guião. O facto de ser o primeiro tomo de um díptico poderia assustar, repetindo a sensação de que algo está incompleto (de estarmos diante de “meio filme”) como em “Duna” (2021). No entanto, a precisão de McQuarrie no corte dos dois hemisférios é madura o suficiente pra evitar isso, e ainda deixar um bom gancho para a parte II.
Espetáculo visual de plenitude técnica, “Dead Reckoning Part One” é o sétimo capítulo de uma saga que rendeu ao cinema 3,6 mil milhões de dólares, consolidando Tom Cruise como o motor de uma engenhoca geradora de fortunas em Hollywood. Engenhoca derivada de uma série de TV homónima exibida pela rede CBS de 1966 a 1973, criada por Bruce Geller, a partir da inspiração geopolítica da Guerra Fria e da inspiração estética do filme “Topkapi” (1964), de Jules Dassin. No momento em que a ficção se deleitava com “007”, de Ian Fleming, na fase Sean Connery, Geller propôs oxigenar as narrativas de espionagem a partir da reflexão sobre o quanto uma imagem pode nos enganar. Assim como cantava Márcio Greyck, “aparências” eram o sustento de um mundo bem polarizado, onde o inimigo estava ao lado.
Cruise chamou De Palma para inaugurar a linhagem de adaptações pelo facto de ele ter feito um magistral trabalho com a matriz televisão ao verter os episódios de “The Untouchables”, com Robert Stack, em filme, em 1987, com Kevin Costner e o já citado Connery. De todos os nomes da Nova Hollywood, De Palma era o único que não flertava com as matrizes documentais, tendo predileção pela ilusão (sobretudo a hitchcockiana) para discutir – sob o status do cineasta autor que é – o impacto da mentira entre nós. Não por acaso, o simulacro de cinema deu-lhe munições para criar um filme cheio de fantasmagorias de género, discutindo chavões hollywoodianos dos thrillers de espiões. O filme desagradou Cruise com as suas ambições , mas teve sucesso.
Filmado ao custo de 80 milhõe de dólares, o primeiro “Missão: Impossível” faturou 457,6 milhões, fazendo de Cruise um sinónimo de êxito comercial e um grande produtor. Mais seis filmes vieram, do qual um único teve baixa adesão popular (o terceiro, de J.J. Abrams) e do qual só o sexto, “Fallout”, traz algo de novo, sendo capaz de nos alumbrar. Os demais são decalques de um cinema de ação mais rasteiro, ainda que o segundo tenha Johm Woo (não na sua melhor forma) no comando. Todos esboçam essa questão da aparência que traí e, a partir do supracitado “Fallout”, os enguiços sentimentais de Hunt ganham tónus.
Apesar do carisma de Cruise, a personagem não era tridimensional, mas algo munda nesta parte sete. Surge uma componente de dor, traduzida na figura do terrorista Gabriel, que Esai Morales encarna com maestria. Ele e Hunt tiveram uma brutal ligação, como irmãos de alma, na juventude. Isso foi antes da agência MIF, a Mission Impossible Force, recrutar o craque em mudar de rostos, vivido pelo hoje sexagenário Cruise. Gabriel é cercado pelas sombras do ressentimento, a força que detona relações e certezas. O que “Dead Reckoning – Part One” faz é explorar essas sombras a partir da conexão de Gabriel com um programa de Inteligência Artificial capaz de detonar sistemas operacionais dos programas de defesa do mundo. Tem algo de “Terminator” nele, mas tem algo de muito real, diante de todos os avanços da IA no planeta, o que atualiza a trama de McQuarrie. Uma vez mais, os versos cantados por Greyck se fazem valer: “aparências nada mais”. São as aparências que a IA usa no filme para torcer a perceção da CIA, do MI5, da Interpol e de tudo o resto. Aparências são as armas que Gabriel usa para manipular o coração fraturado de Hunt.
Formalmente, numa edição que se dilata ao longo de duas horas e 43 minutos, o realizador não deixa que nenhum minuto pareça desperdiçado (nem com gorduras), oferecendo ao público combates trincados de adrenalina, desafios às leis da aerodinâmica e uma sequência num comboio para a posteridade. Em tempos pós “John Wick”, quando a saga de Keanu Reeves devolveu ao audiovisual o sabor da cinemática (o movimento puro), Cruise adapta-se como ninguém às demandas das novas gerações.
“Mission: Impossible – Dead Reckoning Part One” é uma celebração das potencialidades da aceleração, da fricção e da ficção. Uma ficção que está em alerta para o ilusório gerado pelas IA e pelo risco concreto do sucateamento do humanismo. As “aparências que sustentaram as nossas vidas”, como cantou Greyck, hoje ameaçam, e muito.




















