Idealizados há 39 anos como linha de brinquedos, conectados à tradição japonesa dos Mecha, ou seja, robôs gigantes capazes de mutar a própria carcaça, os Transformers chegaram à TV a partir de 1985, com uma série animada – e uma longa-metragem, de 1986 – antes de serem convertidos num live action por Michael Bay, em 2007, sob os auspícios de Steven Spielberg.

Na génese da franquia, a presença do hoje maldito Shia LaBeouf parecia ser a razão de tudo, acompanhando Megan Fox em perseguições automobilísticas entre duas raças alienígenas mecatrónicas, Os Decepticons e os Autobots, vindos de Cybertron, um planeta onde a vida é maquínica. Desde a primeira aventura cinematográfica em carne, ossos e diesel, Bay usou e abusou das personagens, chegando a convocar o íman das bilheteiras Mark Wahlberg para substituir Shia. Gastaram todas as ideias existentes; queimaram soluções dramatúrgicas em perseguições ribombantes, mas sem fundamento narrativo; e só repetiram enredos.

É em 2023 que o realizador Steven Caple Jr. (de “Creed II”) impôs o seu humanismo aos produtores e renovou o que parecia falido. Não apenas apresenta à plateia um carrossel de emoções de tirar o fôlego, como consegue renovar o coeficiente emotivo da saga em dois níveis: no elenco, com a chegada do ótimo Anthony Ramos; na equipa de construtos robóticos, com a entrada do genial Mirage (cuja voz é de Pete Davidson), uma espécie de Axel Foley metálico, e do gorila ciborgue Optimus Primal. Este ganha o vozeirão de Ron Perlman.

Esta equipa dilui o lado de videojogo do novo Transformers e aproxima-o mais dos grandes filmes pop do ano – “Spider-Man: Across The Spider-Verse” e “Fast & Furious X” – que doseiam muito bem adrenalina e melodrama. Tecnicamente, estamos diante da longa-metragem com a montagem mais fluída (e frenética) de todos os “Transformers”.

A fotografia do equatoriano Enrique Chediak sabe ser dionisíaca em espaços abertos, sobretudo nas alusões a uma natureza quase pré-histórica, e sabe ser barroca nos espaços fechados. Mas é Perlman quem mais faz a diferença, ao fazer de Optimus Primal uma criatura tridimensional. É um ator genial, que fez de Hellboy um (anti-)herói inesquecível no cinema dos anos 2000 e volta aqui em modo inflamável. As feições simiescas da sua personagem são empregadas para que ele abra uma questão acerca do que é animal, do que é pessoa e do que é sucata.

Esse dilema é o que solidifica um guião pautado pela busca de uma chave cósmica pelas mãos de uma raça maléfica anterior aos Decepticons, que vem à Terra depois que o tal artefato é encontrado por uma pesquisadora (Dominique Fishback) e dispara a sua energia às estrelas. O bom e velho Optimus Prime (Peter Cullen) é o primeiro a partir para a luta e travar os invasores. A chegada de um super (e pimpão) reforço, Mirage, faz toda a diferença na guerra contra os vilões, que desperta Primal do seu sono e injeta uma dimensão animalesca a uma estética de porcas, parafusos e motores. Animalesca e vívida. Não se trata de uma aventura genérica, mas, sim, do grande filme de que os Transformers necessitavam para serem mais do que uma marca, fugindo dos algoritmos.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
Jorge Pereira
transformers-rise-of-the-beasts-engrenagens-humanasTecnicamente, estamos diante da longa-metragem com a montagem mais fluída (e frenética) de todos os “Transformers”.