Aproximava-se a viragem do milénio, no fim do século XX, ali pelos idos de 1995, quando “The Usual Suspects”, de Bryan Singer, deu ao cinema uma frase seminal para entender o lugar mítico da Maldade no imaginário pop: “O maior truque do Diabo foi fazer crer que não existe”.
Sucesso inesperado de bilheteiras, sobretudo em países de verve católica, “O Exorcista do Vaticano” (“The Pope’s Exorcist”) , de Julius Avery, parte de uma premissa singular e, a partir dela, oferece a um filão rentável – as tramas sobre a expulsão do demónio do corpo de mortais possuídos – uma perspetiva inusitada. É, sim, um filme de terror, e assustador, por não ter medo da dinâmica do jump scare, mas há nele algo do chamado “cinema de aventura”. Inclua nesse “algo” a palavra mais proscrita pela sociologia: herói. Russell Crowe mistura o que fez de melhor em “L.A. Confidential” (1997) com a retidão do guerreiro Maximus, que lhe valeu o Oscar, em “Gladiador”, para recriar uma das mais controversas figuras do Cristianismo na sua hierarquia institucionalizada. Cabe a ele dar tónus heroico ao padre Gabriele Amorth (1925-2016), o que não é difícil, diante da biografia que este teve.
Celebrizado pelo cinema no documentário de William Friedkin “The Devil and Father Amorth” (2017), Amorth foi o intelectual brilhante, consagrado na literatura ensaística e jornalística como sendo um esgrimista da gramática numa trajetória paralela como escritor e repórter de investigação. Sem nunca abrir mão dos seus compromissos como sacerdote, apesar de toda a irreverência com que rezava, ele foi alçado ao posto de Exorcista Chefe do Vaticano. Coube a ele combater manifestações até hoje contestadas pela ciência que vulnerabilizaram corpos em todo o mundo. Crendo ou não na liturgia católica (ou em qualquer credo), é impossível não se aplaudir o seu empenho humanista de defender pessoas fragilizadas pelas intempéries da alma, que uns chamam de surto e outros, de possessão.
No roteiro moldado por Michael Petroni e Evan Spiliotopoulos, a partir de um argumento de R. Dean McCreary, Chester Hastings e Jeff Katz, baseado nas memórias do próprio Amorth, existe um certo desconforto na hierarquia apresentada pela Igreja no fim dos anos 1990 com figuras como ele. Os seus feitos parecem conectar o clero de Roma a uma herança medieval a ser varrida para debaixo do tapete da História. É essa a inquietação que rege os momentos iniciais da narrativa estruturada sob a realização de Julius Avery, que dirigiu Sylvester Stallone no precioso “Samaritano“, um dos maiores sucessos da Amazon Prime em 2022. Antes, ele enveredou por veios horroríficos em “Operação Overlord” (2018), embora sem muito êxito. Mas ele regressa ao universo do terror mais maduro e aposta numa tentativa de renovar um quinhão consagrado em 1973 com “The Exorcist” (hoje retomado por David Gordon Green). Com o apoio de um Crowe em estado de graça, Avery vai discutir a incorporação de pessoas por forças das trevas ao recriar um caso vivido por Amorth, ambientado em Espanha no fim dos anos 1980, no qual uma viúva vinda dos EUA, Julia (Alex Essoe), tem o seu filho mais novo, Henry (Peter DeSouza-Feighoney), tomado por um diabrete. Não se trata de um diabinho qualquer e, sim, um espírito sombrio, cujos poderes desafiam a perspicácia dos clérigos do Vaticano.
Numa decisão sábia da produção de elenco, o realizador aceitou trazer Franco Nero, o eterno Django, para encarnar o Sumo-Pontífice de Roma, o Papa, numa atuação vicejante, de arrancar lágrimas de qualquer cinéfilo. É ele quem escala Amorth para enfrentar e debelar a tal criatura, num momento em que a sua saúde anda fragilizada.
Apoiando-se numa engenharia de efeitos visuais bem estruturada – a partir de um orçamento de 18 milhões de dólares -, Avery consegue criar um espetáculo visual de batalha, sem abrir mão de um conflito intelectual entre a fé, a razão e a intolerância. É um filme para gelar a espinha.
A fotografia de Khalid Mohtaseb amplia a toada claustrofóbica impressa por Avery cena a cena. Em meio de quiproquós demoníacos, com Amorth a usar a oração como espada, Avery ainda abre uma discussão necessária sobre os crimes da Igreja. A investigação comandada pelo sacerdote encarnado por Crowe aborda as negligências (reais) do passado, fala sobre abusos sexuais de padres e analisa os delitos oriundos da Santa Inquisição, o movimento repressor que é muito bem explicado na trama. Max von Sydow deve estar orgulhoso do sucessor à altura que encontrou em Crowe.
















