Incinerado em resenhas e vídeos das divisões mais nerds da cultura pop (com razão!), pela sua carência total de bússola dramatúrgica, incapaz de entregar às plateias seja ação, seja humor, “Shazam! Fury of the Gods” exige uma genealogia histórica multidisciplinar (saindo das telas e das BDs, resvalando em veios literários) para se enquadrar em alguma definição (capaz de lhe justificar) na fenomenologia do entretenimento.

A poesia parece ser o único norte capaz disto. Poeta galês ligado às inquietações do Altíssimo, o sacerdote George Herbert (1593-1633) ficou célebre na Literatura por conta de uma estrofe empregada pela DC Comics numa das suas mais populares minisséries gráficas: The Nail”, de Alan Davis e Mark Farmer. Diz o poema: “Por falta de um prego, perdeu-se uma ferradura. Por falta de uma ferradura, perdeu-se um cavalo. Por falta de um cavalo, perdeu-se um cavaleiro. Por falta de um cavaleiro, perdeu-se uma batalha. E assim, um reino foi perdido. Tudo por falta de um prego”.

Tais versos calçam uma BD calcada numa suposição, num “E se…”, alinhada a um filão que a editora americana chama de Elsewords, referindo-se a realidades paralelas doa seus heróis e heroínas, como o famoso “Superman: Red Son”, no qual a nave do Superman cai em solo soviético, em plena Guerra Fria, e não em Metrópolis. Em “The Nail, o carro do casal Martha e Jonathan Kent – os pais humanos adotivos do kryptoniano Kal-El – pára bruscamente numa estrada, quando um doss pneus é furado por um prego antes de encontrarem a nave que trazia o futuro Homem de Aço à Terra, alterando assim a trama convencional a que fomos apresentados nos quadradinhos, em 1938, e no cinema, pelo filme de Richard Donner, em 1978. Assim, quem usa o foguete que trazia o bebé de Lara e Jor-El é a LexCorp, de Luthor, criando um vilão imbatível.

Essa premissa alterava tudo o que se sabia de um universo sedimentado ao longo de quase nove décadas e abria precedentes para novos veios narrativos, valorizando personagens antes secundários e dando ao (sempre genial) Green Arrow, o Arqueiro Verde Oliver Queen, um protagonismo único nas BDs da DC. Nunca foi possível, contudo, aplicar o conceito de uma trama como The Nail” ao Capitão Marvel, nome original da personagem central da franquia Shazam!, aberta em 2019, com Zachary Levi, da série “Chuck” (2007-2012) à frente do elenco.

Criado à imagem e semelhança do ator Fred MacMurray (de Double Indemnity) em 1939, num esforço editorial da Fawcett Comics em buscar um rival comercial para o sucesso de vendas do Super-Homem, o super-herói com um raio desenhado no peito, idealizado por CC Parker e Bill Peck, sempre sofreu pelo facto de se articular a uma perspetiva infantil de mundo. O titã superforte e superveloz, capaz de voar e de evocar relâmpagos, é o alter ego de uma criança órfã chamada Billy Batson. É uma espécie de Big (1988), a comédia de culto com Tom Hanks cravejada de superpoderes, mas maculada pela mesma premissa: na sua essência, o salvador da Terra é uma criança sedenta de um abraço que lhe sirva de abrigo.

Em 1994, o escritor e desenhador Jerry Ordway quase salvou a personagem do seu abismo com a graphic novel “The Power Of Shazam!”, seguida de uma série de BDs com o mesmo título, que circulou de 1995 a 1999. Ali, investindo em elementos de Arqueologia, ele fundia a origem das habilidades divinas alcançadas por Batson – ao receber poderes de um mago – com vários elementos históricos de natureza mitológica que complexificavam a sua existência, oferecendo um respaldo geopolítico às tramas. Mais do que isso, ele deu a Shazam um vilão: o temível Black Adam (Adão Negro), que acabou sendo repaginado, anos depois, e ganhou um (belo) filme, em 2022, com Dwayne Johnson.

O que mais falta ao incorro Fury of the Gods é um vilão. O realizador, David F. Sandberg (de Annabelle 2”), não entendeu que não se investe em bandas desenhadas sem uma estrutura bem traçada de antagonismo do Bem contra o Mal. Preocupado só em extrair piadas e caretas de Zachary Levi, o cineasta não justifica a atmosfera de risco que se anuncia desde as primeiras sequências, quando as divindades lideradas pela valquíria Hespera (uma deslocada Helen Mirren) se cansaram de ver a Família Marvel brincar com as forças cósmicas e resolveram cobrar deles os poderes. Essa cobrança ignora um cataclisma iminente. Cineastas como James Gunn (de “Guardians of the Galaxy”) talvez filmassem isso com o coeficiente precisa de paródia e tensão. Sandberg, não faz isso. Para ele, filmes de super-heróis são como os que o neozelandês Taika Waititi faz na franquia Thor: pegar num épico e reduzi-lo a um episódio dos Malucos do Riso, ou seja, a uma comédia barata e mal filmada.

Não existe uma só sequência de Fury of the Gods” que soe crível, dramaturgicamente justa à proposta do guião ou empolgante. Só há piadas e demolições dos arquétiposs. No passado, nos anos 1980, cabia à paródia fazer esse tipo de espetáculos, vide Top Secret” ou Naked Gun. Com Sandberg, não há lugar para o paródico. Há preguiça.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
shazam-fury-of-the-gods-dc-a-moda-de-taika-waititiNão existe uma só sequência de “Fury of the Gods” que soe crível, dramaturgicamente justa à proposta do guião ou empolgante