Ágil e tenso, apesar de lidar com engrenagens dramatúrgicas cheias de ferrugem, “65” é uma diversão corriqueira, com alguma potência poética na abordagem da paternidade. Mas obteve realce na sua feitura graças à associação de talentos de peso ao projeto, em diferentes segmentos. Envolvidos no guião da franquia “A Quiet Place“, os realizadores de thrillers B Scott Beck e Bryan Woods tiveram sorte em trabalhar com Sam Raimi na condição de produtor de uma ideia surrada de velha, mas recuperada na forma de uma aventura sci-fi extremamente hábil no uso dos clichês.

Raimi eleva qualquer premissa pop desgastada em algo viçoso e vistoso, a ponto de conseguir a atenção de uma estrela acostumada a narrativas de requinte indie para um filme mais interessado em cifras do que em ousadia formal. A estrela em questão é Adam Driver, empenhado em humanizar uma personagem que não passa de um esboço do arquétipo do herói enlutado. A presença de Driver em “Star Wars” se deu – a partir de 2015 – quando ele ainda não era a marca que se transformou virou. Fora isso, o seu papel era o de neto de Darth Vader, “O” vilão. Aqui, não. É só mais um filme, embora competente.

Apoiados numa engenharia de som engenhosa, os realizadores recriam a premissa do livro “Eram Os Deuses Astronautas“,obra de culto de Erich von Däniken em que seres de mundos mais evoluídos em padrões tecnológicos nos visitaram em épocas antigas. Na trama, o piloto Mills (Driver) veio à Terra quando apenas os dinossauros a habitavam. A sua nave caiu. Dela, só ele e uma menina, Koa (Ariana Greenblatt), sobreviveram. Como perdeu a filha biológica, nos tempos em que estava no espaço, Mills passa a ver Koa como alguém que deve proteger. E o verbo “proteger” encontra como complemento uma série de tiranossauros e escamosos afins.

Só que o guião, antenado aos novos tempos, faz de Koa uma figura cheia de garra, empoderada, o que dá nuances vívidas ao filme. Mas há algumas situações vergonhosas, como o facto de um ET como Mills, em plena Pré-História, clamar por Deus. Falha de revisão.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
65-um-jogo-de-sobrevivencia-batido-mas-eficazUma ideia surrada de velha, mas recuperada na forma de uma aventura sci-fi extremamente hábil no uso dos clichês.