Ellie (Sadie Sink), uma das personagens mais tocantes de “A Baleia” (“The Whale”), é um retrato dos millennials: aposta na fluidez, mas tromba com as representações modernas de benquerer e de família; é avessa a códigos de honra históricos pontuados por qualquer traço de heteronormatividade; abraça o silêncio da escrita, em notas de rodapé nas suas redações, em vez de expressar os seus sentimentos à força da voz. Mesmo taciturna, fechada em si mesmo, ela faz as clareiras afetivas abrirem-se no novo (e encantador) filme de Darren Aronofsky, a ponto de ganhar para si os lugares mais iluminados da fotografia de Matthew Libatique. A luz dele é o que se chama de “outonal”, carregando a interseção do calor e frio típica de uma estação do ano onde as folhas caem e as frutas abundam. Já o lado mais ocre dessa luz, a dos frutos amargos, pertence a Charlie, o pai de Ellie, uma personagem entregue a Brendan Fraser, a qual fez os estúdios de Hollywood pedirem desculpas pelo tempo que ignoraram a sua magistral habilidade de reinvenção. Ele e Sadie são as forças que travam o embate mais tenso desta nova longa-metragem do realizador de “Pi” (1998), controversa como tudo o que o cineasta fez e faz.
Alguns odeiam o facto de Aronofsky ter confiado a personagem central da peça homónima de Samuel D. Hunter, a argamassa estética do projeto, a um homem cis hétero e não obeso, uma vez que Charlie, o protagonista, é um homossexual com 200 quilos, sob o risco da guilhotina armada pela obesidade mórbida. Outros odeiam a maneira como o cineasta enquadra o corpo de Charlie, com closes das gorduras. Há quem odeie a maneira como ele patina pelo gelo fino do melodrama com os seus patins cientificistas, tentando nisso esquadrinhar fatores sociais. Mas há quem o ame pela sua ousadia, pela precisão cirúrgica da montagem, pela maneira com que deixa ensolarar o seu cinema, quase sempre soturno, e pelo monumento que é a atuação de Fraser, num comeback de marcar a época. Não por acaso, o ator está nomeado ao Oscar.
E tudo isso se passa após um duro hiato na sua obra como realizador, pois ficou cinco anos só a produzir filmes de outras pessoas depois das vaias destinadas ao seu “mother!”, em 2017. Cronista dos excessos, especializado em figuras exuberantes cujo viço é comprometido pela desmesura – sejam drogas, como em “Requiem For a Dream” ; seja de esperança no amor, em “The Fountain” ; seja na perfeição, como em “Black Swann” ; seja na Fé, o que era o caso de “Noé” -, Aronofsky faz da Sagrada Escritura e dos escritos do Talmude o seu prisma de entendimento do mundo. Charlie é como Jó: sabe esperar… Mas a espera tem um custo, na relação com Ellie e mesmo no desdém que tem em relação à sua saúde, controlada pela cuidadosa enfermeira Liz (Hong Chau, também nomeada ao Oscar).
Este mergulho autoral do cineasta, no que é excessivo, teve o seu apogeu nas metáforas míticas de “mother!”. Lá, Jennifer Lawrence encarna uma versão humana (e fraturada) da Tradição. Entenda-se Tradição como a soma das virtudes que balizam positivamente as ações humanas, como a maternidade. Na trama, em forma de úroboro (a serpente mitológica que devora o próprio rabo), ela é só uma mulher, sem nome, casada com um escritor de alto gabarito (Javier Bardem, perfeito) que a trata com desdém. Tudo na relação dos dois muda (para pior) com a chegada de um casal de potenciais vizinhos, vividos por Ed Harris e por uma mefistofélica Michelle Pfeiffer (no seu melhor trabalho em anos). Eles instalam-se na casa de Jennifer e Bardem e, aos poucos, levam-na a devorar a maçã da curiosidade, conduzindo-a ao Éden da loucura, numa progressão de desgoverno e destemperança.
Não é diferente o que encontramos em “The Whale” (“A Baeia”), primeiro com a chegada súbita de Elie. Depois, chega a mãe, Mary (Samantha Morton, numa delicada interpretação), a ex-companheira de Charlie, de quem ele se separou para se casar com um ex-aluno por quem se apaixonou. A culpa no seu peito entupido de colesterol, maionese e sumos, vem do facto dele não ter conseguido fazer o rapaz, o seu amado, aceitar-se, livrando-se de todas as correntes moralistas do seu culto religioso e do preconceito. Culto esse que volta a bater à sua porta, na figura de um missionário (Ty Simpkins), num momento em que Ellie reaparece, para pedir ajuda. Um momento no qual a foice dos excessos parece pesar sobre a sua cabeça.
Existe uma metáfora literária que encapa (luxuosamente) a abordagem de Aronofsky: a obra do escritor Herman Melville (1819-1891), em especial o romance “Moby Dick” (1851). Melville era o rapsodo das aventuras náuticas e compôs a mais trágica delas ao narrar a luta do capitão Ahab contra um cachalote. Uma parte de Charlie é Ahab. Ele é um caçador de si mesmo, afoito para matar o monstro dos remorsos. Remorsos por não ter protegido o seu grande amor e pela incapacidade (aparente) de fazer com que a filha, com quem tem pouco contacto, Ellie (Sadie Sink), possa se aceitar no turbilhão hormonal da sua adolescência. Mas há algo de bom de Melville que ecoa nele (e dele): “É melhor falhar na originalidade do que ter sucesso na imitação”. É o que Charlie diz aos estudantes via Zoom, sem ligar a câmara do seu computador, alegando falha no hardware. Esta fala vem da incapacidade que ele tem em se aceitar. Em aceitar a dor que o levou à condição retratada no inquietante tratado afetivo de um maduro Aronofsky.
















