Mais subestimado tomo da franquia sobre o Garanhão Italiano, “Rocky V” (1990) preservou a sua dignidade em algumas sequências, sobretudo o desabafo de Adrian Balboa (Talia Shire) para explicar ao marido que o motivo por trás das suas míticas vitórias não eram arranjinhos, nem tão pouco a eficiência técnica. “Todas as lutas que ganhaste, venceste com o coração“. É uma lição redentora para a personagem criada por Sylvester Stallone e para a legião de fãs formada por ele desde 1976. Mas, a julgar pelo clima gélido e cerebral de “Creed III“, o ator e, agora, cineasta Michael B. Jordan, não ligou à aula de ética e de afetos dada por Adrian. A sua estreia como realizador tem as mais variadas destrezas narrativas, sobretudo no enquadramento nada usual das lutas. Só que o componente melodramático essencial do legado de Rocky – que só é citado, e muito mal, em duas ocasiões – não está presente aqui. O ringue do folhetim soou antes do tempo, o que resulta num virtuosismo vazio, estetizado.
É imperdoável a forma como o músico Joseph Shirley aplica a banda-sonora, apostando num emprego desdramatizado dos acordes, sem relevar conquistas ou derrotas. Perto do que Bill Conti fazia com a música de “Rocky” – quase uma sinfonia de rouxinóis -, a partitura de Shirley não tem qualquer chance de comover as plateias. Mesmo nos momentos de maior glória ou nas situações de tensão extrema, a melodia não ressalta os sentimentos, tornando insossos os embates entre Adonis Creed (o próprio B. Jordan, ainda cheio de carisma), os seus amores (caso da produtora musical, vivida por Tessa Thompson) e o seu algoz, Damian.
Esse papel coube a um ator em fase de apogeu, Jonathan Majors, o Kang da Marvel. Mas a estrela nem de longe faz jus aos requisitos trágicos e às inquietações sociais que o guião – politicamente moderado em demasia – sugere que tenha. O esboço arquetipal de Damian chega a evocar a assombrosa figura de Clubber Lang, vilão dos vilões da série “Rocky” e um dos mais irritantes antagonistas da cultura pop dos anos 1980, vivido por Mr. T. Mas essa evocação não passa de uma reles potência, que não se materializa. Um ex-presidiário com contas passadas a acertar com Adonis, Damian mais parece um tratado sociológico vivo sobre exclusão – com tudo de rizomático que a imagem sugere – do que uma máquina de matar cheia de humanidade à flor da pele. Existe um diálogo entre ele e Adonis, no clímax do filme, que mais parece uma aula sobre Stuart Hall mal dada. Aquele tónus afetuoso que antes cercava Creed, perdeu-se em ambições artísticas que não se cumprem. Sly escapou deste erro de foco.
No fim dos anos 1970, no meio da hemodiálise moral da Nova Hollywood, o surgimento de um herói como Rocky, uma espécie de “Bom Selvagem”, nos moldes do que filosofava Jean-Jacques Rousseau sobre a relação de pureza do ser humano com a Natureza, parecia um ato de contrarreforma – e era. Tinha, sim, um efeito moralizante, mas carregava uma centelha libertária no seu marxismo. Rocky era uma Cinderella com luvas de boxe em vez do sapatinho de cristal. Transformava-se em príncipe com o suor e o sangue dos seus músculos. O marxismo de “Creed III” parece ter fôlego para detonar um debate sobre a violência do Estado contra os pobres. Parece… apenas parece. O que vinga é um combate de egos entre antigo amigos. Pena.




















