Mesmo com minhocas gigantes em forma de energia viva, felinos falantes e dimensões paralelas, “Suzume“, o único dos candidatos ao Urso de Ouro de 2023 a ter perfil de blockbuster, demarca bem o quão demasiado (e doído) é o seu humanismo ao fincar os pés numa perspetiva lírica do luto. Na flor dos 17 anos, a protagonista é fustigada por memórias pouco racionalizáveis de uma perda. Sabe que a sua mãe (solteira) morreu há muito tempo, uns 12 anos pelo menos, em decorrência de uma tragédia climática.

É da natureza dos animes – uma técnica da indústria animada praticada em solo japonês, na qual a narrativa é desenhada, na linha de uma tradição gráfica – justificar por veios mirabolantes todos os conflitos internos das suas personagens. Mas o caminho que um dos mais bem sucedidos realizadores desse filão – o cineasta Makoto Shinkai – percorre é outro, bem menos explicativo e mais sensorial. Está mais na linhagem do folhetim do que das mangas, as BDs nipónicas. O choro que Suzume derrama pela dor da orfandade dispensa motivos fantásticos. É apenas ausência, um substantivo que permeia toda a longa-metragem, que, já lancada no Japão, chegou a Berlim com uma receita de 102 milhões de dólares na pátria natal.

Tudo o que Makoto filma, tem tido retorno no box-office. O seu filme de maior culto, “Your Name“, de 2016, beirou os 382 milhões de délares de receitas. De 2019 a 2021, mesmo prejudicado pela covid, o filme seguinte, “Weathering With You“, atingiu os 200 milhões de dólares. Estimam-se que as cifras de “Suzume” se estabeleçam nessa marca milionária, em especial com a ajuda dos elogios da Berlinale. Há 21 anos, desde que Hayao Miyazaki ganhou o Urso de Ouro de 2002 por “Spirited Away“, existe uma espera por outro filme de animação capaz do mesmo feito ou de, no mínimo, ser laureado pelo júri oficial numa outra categoria. Na linhagem autoral que Miyazaki abriu, Shinkai é quem mais tem o perfil de seguir conquistando vitórias para o seu setor, por conta da já citada humanização dos seus heróis e pela sua verve de autor. Fora isso, a sua forma de escrever – seja estruturas dramáticas de ação, seja um diálogo dos bons – é imensa.

Desde “Distrito 9” (2009) não se vê na indústria cinematográfica premissas tão originais quanto as filmadas… ou melhor, animadas… por ele, que cita Miyazaki como a sua principal fonte referencial. Porém, ele parece estar mais próximos dos trabalhos de Mikio Naruse e Yasujiro Ozu, na sua forma lúdica de retratar os calvários e de representar o amor.

Apoiado num atuação de voz impecável de Nanoka Hara, “Suzume” começa no momento em que a sua personagem título passa a ver portas misteriosas sempre abertas, no meio do nada, na altura do céu. Cada porta dessas, se escancarada, gera uma leva de cataclismas que podem destruir a Terra. É um estranho charmoso, Sota, quem explica isso a ela. É uma explicação breve, mas ela se apaixona por ele no instante. Segue apaixonada até no momento em que Sota é transformado numa cadeira, por uma divindade em forma de gato. É uma situação já retratada por Michel Gondry no seu episódio da longa-metragem em segmentos “Tokyio!“, de 2008. De que importa a forma quando se ama de verdade? Que importa o assombro trazido por forças sobrenaturais quando arrastamos os grilhões de uma figura amada morta? De que importa a rotina se as incerezas do mundo nos convidam para bailar?

São essas as perguntas que tiram o enredo de “Suzume” do nicho nerd e ampliam as suas fronteiras, sulcando-lhe novas e profundas camadas existenciais sem jamais descuidar da sua verve mágica. A direção de arte impecável frisa tudo o que é da ordem do místico, contando com uma montagem que agiliza o ritmo dos acontecimentos – das reviravoltas do guião – sem deixar esvaziar a inquieta dinâmica reflexiva de seu cineasta. A aventura está lá, no volume máximo, porém, o que mais lhe interessa é o processo de amadurecimento de uma menina submetida à educação pela pedra, ou seja, à aspereza, desde pequena. O que ela aprende, por meio de escolhas cheias de retidão, o público aprende também, sem deixar de flutuar pelo universo onírico de um realizador que aposta no inesperado, sem jamais se afastar das vivências mais dolorosas do processo de crescer. Miyazaki deve estar bem orgulhoso do legado que deixou. Para o cinema japonês, que rega o melodrama com as águas de Koreeda, a delicadeza de “Suzume” é uma celebração de linhagens que, um dia, renderam frutos como “Floating Clouds” (de Naruse, em 1955), sem arredar o pé, um só segundo, da estérica autoral do seu diretor, que gastou um ano e três meses elaborando sozinho os storyboards deste espetáculo gráfico.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
suzume-injeta-animo-e-fantasia-na-linhagem-de-autor-do-melodrama-japonesMiyazaki deve estar bem orgulhoso do legado que deixou. Para o cinema japonês, que rega o melodrama com as águas de Koreeda, a delicadeza de "Suzume" é uma celebração de linhagens