Surpreendente na sua habilidade em transformar proposições da Física em dramaturgia, sem deixar o espectador se dispersar, o curso de Ciências em forma de longa-metragem “Ant-Man and the Wasp: Quantumania” aproveita a franquia mais relax do centro comercial chamado Marvel para dar ao estúdio um vilão maior do que a sua trama de timbres matemáticos poderia calcular: Kang, o Conquistador.
Criado há 60 anos, nas páginas da BD “Fantastic Four” nº 19, o viajante do Tempo alinha-se a uma leva de personagens cujos atos aparentemente maléficos guardam uma porção de dignidade ética. Os seus crimes são cometidos em nome do equilíbrio do universo, como é o caso de Galactus, o Devorador de Mundos; High Evolutionary; e Beyonder. São seres assombrosos, mas que, na leitura, espantam menos do que Thanos, Doutor Destino (Doctor Doom) e mesmo o Duende Verde (Green Goblin), uma vez que a retórica deles beira o tédio. Mas Peyton Reed, um realizador de comédias que se reinventou numa parceria com Paul Rudd, brincando aos filmes B de baixo orçamento, adaptou Kang de uma maneira que fanático da Marvel algum havia sequer imaginado – tampouco a Disney -, transformando-o num Darth Vader, graças ao desempenho de Jonathan Majors. É ele quem dá relevo a uma longa-metragem um tanto perdida num empenho de ser uma mistura de “Star Wars” com “The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy” – ou seja, é uma mescla do lado mais operístico da sci-fi com uma paródia rasgada. Afinal das contas, como encaixar Bill Murray no MCU se não fosse pelas vias da galhofa.
Nos seus primeiros enfadonhos 50 minutos, “Quantumania” parece um desfile de carnaval do Rio de Janeiro, cujo tema seria “Innerspace” com Martin Short e Dennis Quaid. A diferença para um desfile real é que, nesse ato inicial, as alas diante de nossos olhos não têm nenhuma harmonia. Tudo parte de uma premissa pífia: Cassie Lang (Kathryn Newton), a filha do Homem-Formiga (Rudd, sempre brilhante), diz ao pai que aperfeiçoou um sistema capaz de chegar ao Reino Quântico, onde o espaço microscópico da matéria dá asas a um novo sistema de vida. O anúncio das suas experiências alarma a sua avó adotiva, Janet Van Dyne, vivida por uma luminosa Michelle Pfeiffer, que está num de seus melhores trabalhos, finalmente tendo espaço para brilhar. O alarme de Janet transforma-se em realidade em segundos, assim que as engenhocas de Cassie catapultam a sua família para a realidade paralela do quantum. Lá, numa direção de arte coerente com os comics dos anos 1970, percebemos de onde George Lucas e sua Lucasfilm tiraram a inspiração para os mundos de “Star Wars”. Tudo tem o jeito de um episódio da série Mandalorian, da qual Reed foi um dos realizadores.
No arranque dos personagens nesse arremedo de “Star Wars: Episode VI – Return of the Jedi“, tudo soa chato, fora as piadas de Murray, que entra em cena como o transgressor Krylar, um namorado de Janet no passado. É olhar para ele e rir, com um acréscimo: a ironia com que Murray se refere à personagem de Michael Douglas. Ele é Hank Pym, criador das partículas que permitem ao Homem-Formiga e à Vespa (Evangeline Lilly) a habilidade mudar de tamanho e conversar com insetos. Pym é marido de Janet, a quem perdeu, por anos a fio nesse mundo quântico. Murray deixa a dramaturgia e transforma-se em sedutor, debochando de Pym e, de certa forma, da persona de galã de Douglas.
Mas o tomo inicial do filme limita-se a isso, pelo menos até Kang chegar, com a proposta de usar uma fonte de energia surripiada por Janet para criar uma máquina de guerra ideal e reformatar o cosmos à sua vontade. Lembra a personagem de Gary Olman em “O Quinto Elemento” (1997), de Luc Besson, mas consegue ser mais profundo – e tenebroso do que ele – uma vez que Majors injeta uma ferocidade gigante nas suas cenas. Majors quase “engole” Rudd, o que não é fácil.
Quando Kang revela os seus objetivos, o filme ganha uma seriedade mais condizente com o padrão das tramas heroicas e sustenta a emoção. Só não consegue tirar da longa-metragem uma certa trivialidade incomoda, nem um gosto de “mais do mesmo”.
p.s.: Há duas cenas pós-créditos. As duas são aborrecidas, ainda que a segunda traga algo de asgardiano.



















