Wolverine é uma personagem difícil, talvez uma das mais complexas da história das BDs, repleto de neuras existenciais como o Surfista Prateado (o seu colega de Marvel Universe), cercado de traumas infantis como Batman (da rival DC Comics), e violento num nível de animalidade quase primevo. Dar a ele um lugar de honra no imaginário da cinefilia, como o australiano Hugh Jackman deu, não é tarefa para qualquer ator. Como se não bastasse, a carga de dor injetada na massa heroica dos filmes da franquia “X-Men”, entre 2000 e 2016, ainda houve a reinvenção da personagem com “Logan”, um western, como “Will Penny”, mas fantasiado de alegoria marvete.

O poder mutante de regeneração, somado ao esqueleto de adamantium (o metal mais forte do mundo), transformou-se numa metáfora para a própria trajetória profissional de Jackman: por vezes, ela parece inquebrável (vide sucessos como “The Man From Oz”, na Broadway) e parece se recuperar de más escolhas (vide o telefilme “Bad Education”, da HBO Max). No seu caminho, Hugh emplacou ainda “Os Miseráveis” (2012), trabalho de excelência na seara dos musicais. Mas Jackman é mesmo bom como o carcaju (nome em português do animal que inspira o x-man dos comics) e também em filmes despretensiosos, como a esquecida comédia romântica “Kate & Leopold” (2001) e a aventura robótica “Reel Steal” (2011). Mas, vez por outra, no desejo de ir além do pop, Jackman mete-se em narrativas que se pretendem pomposas, e inquietantes, mas não passam de um arremedo de antigas fórmulas, como foi o insosso “The Front Runner” (2018) e, agora, “The Son”, um melodrama excessivo onde falas abundantes, açucaradas e lacrimosas, embotam qualquer sinal de sinceridade nas atuações. Nem todas as tramas melodramáticas têm adamantium nos ossos.  

Telenovela tipo os folhetins das 20h dos anos 1970 e 80, “The Son” calca-se no prestígio que o dramaturgo francês Florian Zeller alcançou, em 2020, com “The Father”. Mas, ali, havia um estudo da memória (tema recorrente do autor nos palcos e, agora, nas telas), sob o prisma do seu apagamento gradual pelo tempo. Havia ainda uma estrela em estado de graça, sir Anthony Hopkins, que, devoto do teatro, viu ali, em “The Father”, uma aposta de peso perto do mar de lama que aceita estrelar, em troca de soldos polpudos. Mas a ideia de que “recordar é viver” é explorada na nova longa-metragem do realizador sem qualquer brilho, sem empenho de tratar a lembrança como um lugar de salvação… ou como um calvário. É um problema parecido com o do sobrestimado “Aftersun”, que sofre do agravante de se resguardar em supostas inovações de linguagem para disfarçar sua incapacidade absoluta de construir personagens… e fintar o tédio.

Disso “The Son” (“Um Filho”, em telas brasileiras) não sofre, pois se grita tanto, sofre-se tão alto, com tanto ruído, que o tédio dá lugar a uma fadiga física. É o saldo que se tem da história do reencontro (amaríssimo) de um ex-casal: Kate (uma Laura Dern burocrática) e Peter (Jackman, esforçando-se para tirar vida de onde só há deserto). Um filho une essa dupla num passivo custoso: um rebento, o jovem Nicholas (Zen McGrath). Adolescente, ele está ausente da escola há meses e anda distante e revoltado, sem que se entenda a razão. Vanessa Kirby (o melhor elemento em cena, entre os papéis de destaque) interpreta Beth, a nova parceira de Peter, que precisa equilibrar as necessidades do seu enteado com as de seu próprio filho recém-nascido.

Numa trilha de obviedade, os problemas de Nicholas trazem à tona o passado de Peter, a sua infância conturbada e a relação com seu próprio pai, figura que Hopkins encarna majestoso, com diálogos que reduzem a dor do personagem de Jack a um choramingar egoísta. No melhor diálogo, Hopkins olha para um Jackman devastado e regurgita: “Just fucking get over it”. O seu “Lida com isso”, duro e pragmático, dói em Peter, mas não em nós. Só acende uma lâmpada, em alerta, para a incapacidade que Zeller teve, aqui, de nos tocar, prejudicado por uma estrutura formal burocrática e convencional, sobretudo na fotografia gélida de Ben Smithard.

Teria sido melhor para Jackman voltar às BDs em busca de aventuras inéditas de Wolverine.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
the-son-nem-todo-o-melodrama-tem-esqueleto-de-adamantium Zeller teve, aqui, uma incapacidade de nos tocar, prejudicado por uma estrutura formal burocrática e convencional, sobretudo na fotografia gélida de Ben Smithard.