Sustentado por um punhado de (ousadas) sequências de luta e uma eletrizante sucessão de peripécias envolvendo um helicóptero, num desafio às leis da gravidade e da verossimilhança, “Operation Fortune: Ruse de Guerre” desconecta Guy Ritchie da trajetória ascendente que vem assumindo desde o fenómeno “Aladdin” (2019), confuso entre o desejo de fazer rir e a sua habilidade para explorar os códigos cinemáticos do thriller. Há um fiapo de trama: espiões de todo mundo querem um dispositivo, Handle, capaz de amplificar armas de inteligência em todo o planeta, o que leva o milionário Greg Simmonds (papel de um inspirado Hugh Grant) a se apoderar desse artefato e negociar o seu destino com nações em conflito. A célula espiã de maior e melhor esperteza terá o Handle e fará uso dele. Ou seja: aos ratos, um queijo. Nada mais.

Ritchie tenta de todas as formas fazer essa premissa batida se tornar ora pomposa, ora virulenta. Acerta bastante no segundo algo, a virulência, usando os seus enquadramentos sempre histéricos em prol de uma sinestesia que nos entorpece. A sua aposta em montagens aeróbicas, com tensão a mil, funciona quando empregada nas situações em que Jason Statham, limitado à sua persona de ferrabrás, bate nas fuças alheias. Mas a parte da pompa fica a desejar, perdendo-se em piadinhas que cansam.

Grant faz o que pode no papel do vilão empregando elementos que trouxe de “Small Time Crooks” (2000), de Woody Allen, onde provou ser capaz de ir além das RomComs que lhe deram fama nos anos 1990. Aubrey Plaza, no papel de uma operacional que encampa a parte mais “tecnológica” (de hacker) do grupo do agente Orson Fortune (Statham), também tenta ir além da mesmice. Esbarra na limitação de um guião corriqueiro, que tenta escapar do lugar comum debochando o perfil heroico de Fortune, rindo dos seus vícios (em vinhos caros) e de suas fraquezas. Mas, no momento em que Statham surge impávido a distribuir pontapés em cara alheia, nada disso se sustenta.

Espécie de herdeiro de Stallone, o seu parceiro na franquia “The Expendables” (em vias de lançar um quarto volume), Jason S. e Ritchie travaram amizade e parceria em “Lock, Stock and Two Smoking Barrels” (1998) e “Snatch” (2001), repetindo a sinergia em “Revólver” (2005). Ritchie é um autor, mesmo dividindo opiniões no seu estilo quase epilético, de cortes velozes, que rendeu fortuna a superproduções com “Sherlock Holmes” com Robert Downey Jr. (2009). O cineasta cunhou ainda thrillers estilizados, como “The Man from U.N.C.L.E.” (2015) e (o excecional) “The Gentlemen” (2019). Em 2021, ainda sob o clima da pandemia, ele dirigiu Statham em “Wrath of Man”. Trata-se de uma releitura anglo-americana do thriller francês “Le convoyeur” (2004), de Nicolas Boukhrief. Statham assume o papel que era de Albert Dupontel, agora chamado de H. Repleto de destreza em lutas e no uso de armas de fogo, ele entra para uma equipa de seguranças responsável por proteger sacos de dinheiro. Mas H não entrou interessado em trabalho e, sim, numa vendetta pessoal, que envolvem tragédias pessoais.

Ali, havia humanidade, uma reflexão sobre a dimensão trágica do revanchismo e um estudo (vivo) sobre a nova formação das máfias. Em “Operation Fortune” não há nada disso. Há só um requentar de fórmulas, o carisma bad boy de Statham (sempre prazeroso) e uma atuação acima da média de Cary Elwes, no papel do superior de Fortune. No mais… o mesmo.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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