Por mais loucas que sejam as confusões do Tramp, retrato poético do lumpesinato encarnado pelo ator e realizador Charles Chaplin (1889-1977) de 1914 a 1936 (ano de “Tempos Modernos“), nenhuma há de chegar aos pés das excentricidades praticadas ou observadas pelas personagens criadas por Damien Chazelle no seu sumptuoso “Babylon“. Há lugar para o Vagabundo vivido por Chaplin não só pela época visitada pelo realizador de “La La Land” (2016). Existe este lugar para se tratar numa narrativa de tristeza chapliniana, com traços naturalistas na sua habilidade de olhar para a Hollywood da Era Muda por lentes sociológicas funcionalistas, a partir das quais aquela cidade de celulóide transforma-se num sistema vivo. Neste sistema, cabe bem uma reflexão trazida pela estrela do genial “The Gold Rush” (1925): “Num filme o que importa não é a realidade em si, mas, sim, o que dela pode extrair a nossa imaginação. (…) Nunca acharás o arco-íris, se estiveres a olhar para baixo“. Pois é para baixo, para a ruína, que os tipos delineados por Chazelle olham, atrás da esperança perdida num projeto estético transmutado pela chegada do som.
Parte do que lá se vê chegou até nós via “Singing in the Rain” (1952) ou “The Artist” (2011), sem contar a literatura de Nathanael West (1903-1940), por meio do romance “The Day of the Locust” (1939). Romance esse filmado por John Schlesinger, em 1975, de modo a produzir uma espécie de atestado de óbito ao que se passou com os estúdios de L.A. nas primeiras três décadas do século XX. O mesmo óbito é exumado por Chazelle, num esforço de dissecar o que aconteceu entre o apogeu das estrelas do cinema silencioso e a génese dos “talkies“, os filmes sonorizados. Ao voltar ao assunto já tratado em sucessos e filmes de culto de outrora, o realizador arrisca a se repetir, mas sai bem na sua tentativa. A sua ambição e a sua destreza para tornar factos corriqueiros em espetáculos salvam-no do perigo. Há um frescor na sua “Babilónia“.
Mesmo assim, o filme é dos mais injustiçados nos potenciais candidatos ao Oscar 2023, afogado em notícias prematuras sobre o seu fracasso comercial. Custos altos com as filmagens, inflacionados pela sua (preciosa) direção de arte, não se pagaram nas bilheteiras. Mas há um ímpeto de coragem único no filme. Periga ser o mais corajoso gesto de enfrentamento à moralização e às mordaças da correção política desta temporada, com Margot Robbie a vicejar, em puro encantamento, numa reconstituição dos Loucos Anos 1920, quando tudo parecia uma festa.
Por três horas e nove minutos, o público lambuza-se de excessos – inclusive o da excelência – numa narrativa feroz, barulhenta e aeróbica do storyteller que nos deu “Whiplash” (2014) e o belo “First Man” (2018), sempre apostando no desejo. A sua obra vem sendo pavimentada a partir de olhares que se ficaram míopes sob o vetor da ambição, seja a artística, seja a financeira, seja a sexual. São olhares cobertos por uma venda… a venda dos aparelhos ideológicos de censura e cancelamento ao nosso redor.
Vencedora do Globo de Ouro de Melhor Banda-Sonora, a música do filme, composta por Justin Hurwitz, torna o delírio de Chazelle ainda mais transcendente, na sua tentativa de recriar o modo de produção da década de 1920, numa espécie de inventário de um fracasso. A fim de mostrar como foi o extermínio da moral (e da prática profissional) de uma arte (a priori) silenciosa, dependente de um suporte físico (as cartelas de texto), Chazelle parte da euforia em seu estado mais dionisíaco e nos dá uma festa de arromba nos seus minutos iniciais. Orgia é o melhor termo por que vemos, evocando “Rio Babilónia” (1982), de Neville D’Almeida, e “A Grande Beleza” (2013), de Paolo Sorrentino. É nessa festa que aparece Nellie (Margot), uma aspirante a diva que arrebata, com o seu despojamento, o coração de um assistente de set, Manny (Diego Calva, de uma precisão cirúrgica em cena).
Incansável para o trabalho, seja ele qual for, Manny vai ganhar a confiança de magnatas e de astros, em especial a de Jack Conrad, herói dos filmes silenciosos. É uma personagem inspirada em John Gilbert (1897-1936) – parceiro de Greta Garbo em “Anna Karenina” (1927) – que garante a Brad Pitt uma atuação monumental. É um trabalho menos apolíneo do que o de “Era Uma Vez… Em Hollywood” – com o qual ele ganhou um Oscar, em 2020. O que se vê em Conrad é uma figura crepuscular, que Pitt compõe com as entranhas, abrindo uma reflexão sobre a natureza popular do cinema.
Levados pela mão por Chazelle, vemos Conrad cair no abismo e, nele, olhar para dentro de si mesmo e dos deuses do grande ecrã. A personagem convida a um exercício proustiano de busca por um tempo perdido que se calça em corações e projetos industriais alquebrados, apresentados por Chazelle sem medo de ser erótico, sem pudor de resvalar na histeria. O ato III, quando um Tobey Maguire de dentes podres e olheiras fundas, entra em cena, é o fundo de um poço que afogou muitas carreiras. É um ato de pura dor, mas que proporciona iluminação.
Vale um destaque para os satélites da trama, que nos detalham sobre as intolerâncias de ontem (e ainda de hoje), como o jazzista Sidney (Jovan Adepo) e a cineasta Ruth Adler, encarnada por Olivia Hamilton.




















