Pantomimas por vezes caricatas dão chão ao trabalho de composição do palhaço Art, o novo fanfarrão do horror, cujo gestos põe à prova o talento do seu intérprete, David Howard Thronton, no fenómeno n. 1 do gore da atualidade. “Terrifier 2” saiu do papel a um custo estimado de 250 mil dólares e já arrecadou, mundialmente, 13 milhões, uma faturação que ainda não cessou. As salas de exibição na Europa e das Américas andam repletas de goremaníacos secos de sede pelos coágulos derramados por Art, nas loucas formas de cortar carne humana, elaboradas pelo realizador Damien Leone. Foi ele que desafiou uma moda contemporânea de rejeição aos jump scares, em nome de um tipo de terror dopado de Rivotril e sem sangue a voar pelas telas. É o tal do “novo terror” e o seu “parente cool”, o extra-ordinário, que deu os seus primeiros passos em Cannes, há 12 anos, com “Trabalhar Cansa“, de Juliana Rojas e Marco Dutra.
Existem narrativas horroríficas recentes que chocaram plateias, como “Titane”, a Palma de Ouro de 2021 de Julia Ducournau, mas ali é um caso de “body horror”, um veio de tons filosóficos inspirado pela obra de David Cronenberg. No geral, o terror anda mais manso, elegante. Há um empenho nas novas vozes para emular “Psycho” (1960), de Alfred Hitchcock (1899-1980). Esse filme de culto foi eleito o melhor filme do mundo num inquérito da Variety. E foi eleito o nº1 do mundo pela sua maestria, riqueza psicanalítica e, sobretudo, poder de sugestão. Hitchcock usava música e aeróbicas da câmara a fim de assustar o espectador, construindo crimes violentos de maneira metonímica (a parte pelo todo), deixando o sangue fluir de maneira homeopática. Até “The Birds“, que faz 60 anos em 2023, consegue levar um tónus sugestivo para a estrutura de “filme de monstro”, falando de aves assassinas. O tal do Novo Terror, dedicado ao assombro que se desenha nas franjas da violência, como “Shapeless”, “Speak No Evil” e o brasileiro “A Sombra do Pai”, bate palmas a essa fina dinâmica hitchcockiana, mas tenta exercitá-la de modo gourmet, optando por movimentos mais brandos, sem dar brecha ao sensacionalismo gráfico (com jorros de coágulos). Rejeita-se o dispositivo dos jump scares, a surpresa em forma de susto. Quer fazer do susto um mero detalhe. Por isso, espetáculos memoráveis do género, como “The Conjuring II”, de James Wan, uma obra-prima pop, soa “gorduroso” demais para a estética “diet” do horror de hoje. É uma rejeição a uma linha de mercado com efeitos sensacionalistas, numa linha sinestésica. Há ainda outro caminho em voga: os thrillers fantásticos antirracistas, que ganharam força com a obra do diretor Jordan Peele, a partir de “Get Out!” (2017) e de “Us” (2019). Mas esses novos caminhos dramatúrgicos, aptos a valorizar as inquietações das urgências contemporâneas, não descartam a vigência de uma categoria chamada slasher gore, um termo aplicado a tramas sobre assassinos de cutelo em punhos, cuja brutalidade é exposta sob litros de sangue derramado, tal como gosta o supracitado Art. No filme dele, não há nenhum espaço para a tal sugestão que se via em Norman Bates em “Psycho”, dando às mortes um tratamento explícito, quase pornográfico.
Tudo soa excessivo em “Terrifier 2”. Perto de Art, o Michael Myers de “Halloween” e o Jason de “Friday The 13th” são anjos de candura. Dá asco ver os seus chistes fatais, mas Thornton, sob uma pesada maquiagem de palhaço, com gestos de mímica, encarna este ente maligno “clownesco” bem demais. Movido a mortes, a personagem surgiu numa curta-metragem de 2011 e ganhou o espaço nas longas-metragens em 2016, com o êxito do primeiro “Terrifier”. O seu regresso agora é ainda mais apelativo, o que garante prestígio no coração das hostes do gore, sempre afoitas por tripas evisceradas. Na realização, Leone impressiona pelo domínio pleno das cartilhas do medo e da ação. O ritmo do filme é nevrálgico, sem cair um só segundo, apoiando-se no talento da sua estrela: Lauren LaVera. Ela vive Sienna, uma estudante cujo falecido pai, um ilustrador, deixou previsões funestas sobre o encontro dela com Art, um ser das trevas que esquarteja quem encontra pela frente, sob o comando de uma menina fantasma. O espírito chacoteador dessa tal moça morta guia a sua mira e amplia a precisão do fio da sua faca.
Percebe-se em tudo isto uma direção de arte eficaz a cada bestialidade de Art, mas com uma ressalva: é temerária a maneira como Leone enquadra Sienna, objetificando-a. A atriz tem 28 anos, mas a sua personagem – filmada sob ângulos hiperssexualizados – é uma colegial. Eis uma deformação sobre a qual o gore precisa refletir. Falta atenção aos novos tempos. Mas, o horror parece disposto a uma renovação da sua medula, o que, por vezes, pode estar a limitar a sua autocrítica. O facto é que o excesso fez “Terrifier 2” correr bem, com o sucesso de Art.




















