Embora hoje seja dificílimo entender o que levou a corriqueira, burocrática e mal-acabada sci-fiLooper” a se encher de elogios da crítica, há dez anos, aquele jogo de gato e rato entre Joseph Gordon-Levitt e Bruce Willis fez do cineasta Rian Johnson uma aposta para a renovação dos filmes de género em Hollywood. Otimista panglossiano, qual o Cândido de Voltaire, J.J. Abrams acreditou nele e achou que ele seria o realizador certo para “The Last Jedi”, o oitavo episódio da franquia “Star Wars”. Mas, enganou-se: lançado em 2017, o filme que põe Luke Skywalker a fazer piadas virou objeto de chacota entre os fãs de Darth Vader.

O cinema americano foi paternalista com Rian e deu-lhe uma chance de se redimir, confiando-lhe “Knives Out: Todos São Suspeitos”. O projeto de usar um dispositivo narrativo similar ao da prosa de Agatha Christie (1890-1976) – no qual um investigador fareja a culpa nos múltiplos vértices de um crime – ganhou sinal verde para poder sair do papel quando o realizador provou ser capaz de lidar com um pequeno orçamento para o padrão da indústria, nos EUA: 40 milhões de dólares. Melhor do que isso: Johnson concebeu aquele filme na lógica do eye candy – expressão hollywoodiana usada desde “The Towering Inferno”, para defender thrillers assumidamente caça-níqueis, repletos de estrelas, muitas delas já veteranas, incomuns em tramas do género. “Con Air” (1997) é um bom exemplo de eye candy: a omnipresença de estrelas é um “doce para as retinas” das plateias. Foi com esse alinhamento, e com uma trama rocambolesca, que Johson emplacou o fenómeno de reativar a linhagem do enredos detetivescos, narrados com refinamento. Conseguiu 312,8 milhões de dólares nas bilheteiras e ainda concorreu ao Oscar de Melhor Argumento Original.

O problema: com a escusa de ser um tratado marxista sobre a exploração de uma jovem empregada latina (Ana de Armas) pelos herdeiros do seu patrão, “Knives Out: Todos São Suspeitos” escondia os seus múltiplos defeitos, entre eles a absoluta incapacidade de manter o tom de suspense aceso ao longo da sua duração. Pior do que isso: Johnson tem uma sanha (autoral, vá lá) de quebrar mitos, como fez em “Star Wars”. Ele gosta de alquebrar a persona clássica dos heróis. Por isso, tentou esmigalhar códigos dramatúrgicos por trás da figura do investigador impávido, encarnada por Benoit Blanc (o herói), sem justificação alguma que sustentasse a sua provocação. O motivo é apenas despedaçar a centelha de 007 que Daniel Craig, o intérprete de Blanc, carrega. Para isso, no desenho deste Hercule Poirot pós-moderno, o cineasta carrega no sotaque, acentua empáfias e alimenta um ar blasé que não condiz com Craig. Mas… funcionou e houve quem caísse na rede.

Três anos depois, o realizador não teve meios de evitar uma sequência do seu sucesso e, para isso, jogou os holofotes, antes divididos com Ana de Armas, todos sobre um Daniel Craig sem bússola, autocentrado e sem viço heroico. “Glass Onion: A Knives Out Mystery” nasceu não para o circuito exibidor e, sim, para a Netflix, a esbanjar desmesuras, calcado num trabalho histérico do ex-James Bond.

Rian errou a mão no visual desta “parte dois” e optou por uma direção de arte cheia de gordura, com cores que berram sem ter um conceito, e convocou um Edward Norton sem uma gota qualquer de empolgamento dramático para ser o eixo de uma nova investigação.

Glass Onion: A Knives Out Mystery

Norton é um bilionário que promove um encontro de antigos amigos na Grécia, a fim de reatar laços e fazer pazes com uma colega, perita em tecnologia, a quem ludibriou: a senhorita Brand, encarnada por Janelle Monáe – a única força vital do filme. A celebração inclui Blanc, sem que ninguém, nem o anfitrião, entenda o que ele faz ali. Mas, a morte súbita de um dos convidados, o influencer digital Duke Cody (Dave Bautista, numa desconstrução da sua personagem na Marvel, Drax, sem qualquer sentido). Do suposto assassinato dele em diante, o filme se embrenha num labirinto de reviravoltas – algumas inteligentes, outras forçadas – a fim de surpreender o espectador – e até mesmo Blanc. Mas a absolta falta de subtileza afoga tudo o que se vê em saturados desfiles de vaidade de um cineasta que busca criar tensão, mas não sabe descortinar adrenalina.

Existe um paralelismo pálido, mas inegável, entre “Glass Onion: A Knives Out Mystery” e “The Square”, do sueco Ruben Östlund, que conquistou a Palma de Ouro de Cannes de 2017. Esse paralelo se dá no modo como ambos apelam para a razão cínica, nos seus guiões, para fazer um balanço do elitismo relacionado ao mundo das artes. Johnson consegue, inegavelmente, abrir um debate sobre o tédio e arrogância do universo do mecenato. A diretora de arte e figurinista Isabel Paranhos Monteiro escreveu um precioso texto sobre o filme de Rian, nas redes sociais, no meio de uma polémica na linha “amei x odiei” em relação ao filme. Nas palavras dela, o novo “Knives Out” “expõe o perfil do mecenas contemporâneo, perspicaz, porém, ignorante, que se sustenta explorando inescrupulosamente o talento alheio e usando a ostentação e a excentricidade como armas de poder. Numa outra camada, a mais explorada, está a questão da arte. O milionário venera a Mona Lisa, mas tem a casa recheada de arte moderna ou contemporânea. Tem um Matisse no WC e tem um Jeff Koons”.

Com isto, Isabel brinda-nos com a lanterna de um raciocínio crítico saboroso, com a propriedade de quem vem das artes plásticas, para emprestar envergadura a um filme que necessita de muletas para parar de pé, depois de tropeçar na sua (formulaica) adesão aos solavancos do guião que (forçosamente) encanta o público sem ter cimento sob as solas dos sapatos para se sustentar.
Desde a chegada do filme à Netflix, no dia 23 de dezembro, Johnson anda a se calçar numa microscópica participação de Hugh Grant como chamariz. Apelar para o imaginário cinéfilo é a sua forma de se escudar das suas imprecisões.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira
glass-onion-a-knives-out-mystery-misterio-sem-subtileza-excessos-sem-essenciaUm filme que necessita de muletas para parar de pé, depois de tropeçar na sua (formulaica) adesão aos solavancos do guião