War Pony” e “Kings of The World”. Curiosos os pontos de contacto e aquilo que os distancia. 

Ambos os filmes mostram jovens à procura de um lugar numa sociedade que lhes é profundamente hostil e ambos partem de incidentes que implicaram o despossuir da terra onde os ancestrais dos protagonistas viveram toda a vida. De um lado, estamos em antigo território de tribos indígenas (Oglala Lakota) dos EUA, do outro (Colômbia) temos também território indigena progressivamente reduzido, primeiro pelas malhas do colonialismo, depois pelas ditaduras militares e a espoliação para dar lugar à mineração. E há ainda outro elemento, totalmente simbólico, que rasga o ecrã fazendo um jogo entre o real e o onírico, o passado e o presente. Esse simbolismo chega através de dois animais: no caso do filme de Laura Mora, um cavalo branco, no caso do filme de Gina Gammell e Riley Keough, um bisonte. Ambas as criaturas são rasgos místicos no meio de terríveis realidades, um antes de ligação à terra e um depois de exploração da mesma, onde a marginalidade não é opção, mas surge como um desígnio de raízes históricas.

Mas apesar destas semelhanças espirituais, políticas e sociais, cada um dos filmes caminha individualmente ao serviço das suas autoras e de uma História. No caso do Laura Mora, já dissemos anteriormente, a “pornomiséria” que Ospina falou parece recauchutada para a modernidade. Já no caso do filme norte-americano, a linguagem cinematográfica entre o realismo e o videoclipe colocam em cena algo entre Sean Baker e Chloe Zao, com Larry Clark a sublinhado. 

Os dois protagonistas de “War Pony”, Matho e Bill, são duas figuras bem distintas, mas podiam ser o mesmo rapaz em fases diferentes da vida. O primeiro, extraordinariamente interpretado por LaDainian Crazy Thunder, fulminante no seu olhar agridoce, vive com um pai que trafica drogas e faz da agressividade o quotidiano. Quando um dia é expulso de casa pelo progenitor, vai acabar sob a alçada de uma mulher que alberga crianças e trafica drogas, iniciando um percurso que tem tudo para culminar em tragédia.

Já Bill (Jojo Bapteise Whiting) é uma espécie de Post Malone da reserva nativa americana de Pine Ridge, tentando manter contato com uma ex-namorada, com quem teve um filho, tomando conta de outro rebento (cuja mãe está presa),  enquanto vai fazendo biscates e cuidando de um poodle que comprou como oportunidade de negócio (de procriação). A sua sorte vai mudar para melhor, antes de piorar, quando decide ajudar um homem na beira da estrada, o qual lhe oferece dinheiro e emprego. Esse homem e a sua esposa parecem figuras caricaturais de alguém que podia ter organizado aquela bizarra festa de “Get Out”. Reflexos prioritários do privilégio braco, estas figuras servem como ponto de comparação para as disparidades sociais nos EUA, a começar nesta reserva, onde ancestralmente as tribos indígenas ditavam as leis. 

Com uma fotografia cuidada, sempre a jogar entre a atualidade e o passado através de pequenos toques,  e uma montagem que frequentemente faz a ligação do mistico ao terreno e material, “War Pony” conquista o espectador com toda a brutalidade através de vidas incapazes de mudar a sua situação, por mais que tentem e sejam corretas. Desapropriedados da sua própria terra, dos nomes e modos de ser, aos nativos norte-americanos resta tentar cavalgar pela pradaria do sonho branco americano, onde competição e meritocracia são bastões, mas impera sim a lei do privilégio e conhecimentos junto do poder.

A ver.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
war-pony-sombras-do-passado“War Pony” conquista o espectador com toda a brutalidade através de vidas incapazes de mudar a sua situação, por mais que tentem