Não faltam planos bonitos, movimentos de câmara arrebatadores, um sentido social urgente e até um jogo entre o real e o onírico capaz de nos conquistar a cada frame neste “Kings of the World”, vencedor dos Festivais de San Sebastián e Zurique. Porém, esta segunda longa-metragem da colombiana  Laura Mora (de “Killing Jesus”), exibido no Festival do Cairo no Panorama Internacional, apenas acentua todo um cliché que se abateu sobre o cinema latino americano nas últimas décadas, muito impulsionado pelo circuito dos festivais, trazendo novamente à baila o que Luis Ospina e Carlos Mayolo falaram no final dos anos 70 de Pornomiséria.

Só este ano, e sem recorrer a cábulas, “La Jauria”, “La Hija de La Rabia” e “Kings of The World” foram exemplos dessa trend (é o nome certo), onde orfandade, pobreza e violência que gera violência são uma bola de neve que vira avalanche, num reciclar contínuo de novos peões de uma tragédia social permanente. Mas se os dois primeiros filmes, primeiras obras (o que desculpa de alguma forma eventuais quedas em clichés), existiam suficientes nuances para se afastarem de algum oportunismo da escolha temática, “Kings of the World” parece viver exclusivamente disso, transformando o horrível (as vidas e um país em transição) em material poético (nas palavras e imagens) de raízes políticas e históricas, não faltando o habitual cunho simbólico (veja-se o cavalo branco), onde se evidencia o “autor” ao invés da obra.

No fundo, e não diferentemente de todos os elementos pastiches que tanto criticamos na indústria de cinema e o culto exacerbado aos super-heróis, que geram trabalhos derivativos a cada minuto, o cinema dito marginal sul-americano parece ele mesmo serializado em torno da pobreza, e industrializado (formatado) para o “primeiro mundo” ver, digerir e esquecer no meio da multidão, como apenas mais um. 

Saí bem desta fotografia a autora, Laura Mora, que ao segundo filme nos leva por acidentes políticos e históricos vindos dos tempos ditatoriais e que criaram uma nova vaga de pobreza e deslocação, num povo já abalroado e estruturas de poder colonialistas. É num rapaz que nos focamos, e no seu regresso à terra que era da avó, agora devolvida pelo burocrático estado democrático. É juntamente com outros amigos, orfãos e sem teto, que ele parte para recuperar o que é seu, das movimentadas e cheias de conflitos ruas de Medellín às nebulosas paisagens andinas, igualmente letais e hostis.

Belo, duro, etc, mas sentindo-se sempre artificial, este verdadeiro “isco” para festivais de cinema aplaudirem e congratularem, mostra sem dúvidas uma mão cheia de talentos na arte cinematográfica, mas a sua forma e estética (que é narrativa) sente-se mais oportunista que nunca.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
kings-of-the-world-pornomiseria-2-0"Kings of The World" mostra sem dúvidas uma mão cheia de talentos na arte cinematográfica, mas a sua forma e estética (que é narrativa) sente-se mais oportunista que nunca.