É difícil conter a tristeza quando as primeiras imagens de Chadwick Boseman (1976-2020) se estruturam como colagem na abertura de “Black Panther: Wakanda Forever”, um filme que transpira sinceridade no seu empenho em mostrar o país fictício que assume como arena em luto, pela perda do seu soberano, e protetor. É um luto que transborda o campo fílmico. Mas essa dimensão comovente não atenua as asperezas formais num projeto talhado para ser um dos maiores sucessos do box-office do ano, que se diferencia, factualmente, pela sua essência inclusiva, no seu duelo contra a intolerância. Prejudicado no arranque pela escolha de uma protagonista carente de carisma (Letitia Wright) e enfraquecido por sequências palavrosas, nas quais o ritmo da montagem despenca, o novo tomo da saga “Black Panther” tem mais relevância ética do que estética, funcionando mais como um (tocante e doído) requiem para Boseman do que como espetáculo derivado das BDs.
Não lhe falta ação e alguns dos seus combates são impressionantes como inventos coreográficos, vide a primeira missão da tropa de mulheres Dora Milaje, com especial destaque para Aneka (Michaela Coel) e as suas lâminas. A destreza com que o realizador Ryan Coogler administra (e distribui, cena a cena) a adrenalina do filme é notável, ainda que o acabamento visual de parte dos efeitos visuais não seja dos mais esmerados, tornando algumas batalhas canhestras.
Outro ponto fraco desse regresso da cultura pop a Wakanda: não há razão dramatúrgica na participação do agente Everett Ross (um Martin Freeman deslocado) no guião escrito por Coogler e Joe Robert Cole. A presença do eterno Bilbo Baggings foi uma forma de Coogler estruturar um istmo afetivo com a estrutura insular da primeira longa-metragem da franquia, que assume um tónus geopolítico (na sua militância antirracista) distinta dos demais produtos da Marvel Studios. Mas esse istmo naufraga em caricaturas, estando ali apenas para justificar uma tirada cómica envolvendo uma personagem misteriosa, vinda das séries da Disney +, cuja aparição neste novo trabalho de Coogler deve se manter em sigilo, longe de spoilers, assim como a revolução das sequências pós-créditos.
Fiel à narrativa de aventura, avessa a exotismos, do primeiro “Black Panther”, no qual África era vista sob uma perspetiva propositiva e potente, preserva o tom lúdico e lírico da sua matriz cinematográfica, mesmo com os limites apontados no parágrafo acima. Há um antagonista (a palavra vilão, no contexto procurado pela trama, parece inadequada) capaz de transbordar mistério: o Príncipe Submarino, Namor, construído pelo ator mexicano Tenoch Huerta Mejía com fina inteligência. Mas o que ele tem de melhor é Angela Bassett, que pode (e merece) ser nomeada ao Oscar pelo seu desempenho como a Rainha Ramonda, mãe do finado T’Challa e de Shuri, encarada como signo de harmonia pela nação mais evoluída do planeta, segundo o Atlas da Marvel. No mundo que existe fora da banda desenhada, Angela, aos 64 anos, pode ter, enfim, o reconhecimento que merece desde os anos 1990, quando tomou para si os holofotes que iluminavam “Boyz n the Hood” (1991), de John Singleton (1968-2019), e sobre “Malcolm X” (1992), de Spike Lee, que a define como “amiga do peito e parceira de criação”. Esbanjando retidão (e solidão, pela perda da sua prole), Ramonda encara Namor ao dizer sem escudos, sem armas, apoiada apenas na diplomacia: “Agora, é a nossa hora de atacar”. E o faz com o mesmo espírito bravio e o mesmo vozeirão que tonitruava em “Strange Days” (1995), o seu melhor filme.

Nos comics, Ramonda é da África do Sul. Quando mais jovem, numa manifestação em retaliação ao apartheid, esbarrou com o wakandiano T’Challa, então adolescente, em viagem pelo mundo, numa pesquisa sobre as práticas da intolerância racial. Ela reaproxima o rapaz do pai, o rei T’Chaka, soberano viúvo da nação africana imaginada por Stan Lee e Kirby, por quem ela se apaixona. Os súbditos de T’Chaka ainda choram a perda da mãe biológica de T’Challa, N’Yami, e rejeitam Ramonda, até que a sua diplomacia e dialética, à frente do trono, impressionam a população. E ao ficar grávida de Shuri, Ramonda ganha o carinho de toda a pátria. Mas depois, nas revistas Marvel, ela será raptada por um poderoso político sul-africano, chamado Anton Pretorius, cuja obsessão por ela se transforma em violência e abuso. É T’Challa quem consegue salvá-la, assumindo o seu amor filial pela mulher que o adotou e o tratou com todo o carinho esperado da maternidade. Nos ecrãs, “Wakanda Forever” dá os seus voos quando a câmara de Coogler fita o olhar alquebrado de Ramonda.
Para alavancar a carreira comercial do filme, interessada em destronar “Top Gun: Maverick”, a Marvel investe na história das mulheres de Wakanda relançando álbuns como “Black Panther: World of Wakanda” (2016) e em textos inéditos no seu site oficial, Marvel.Com. Neste artigo é possível ler mais sobre Ramonda, que faz a indústria audiovisual em massa encarar Angela Bassett como estrela de futuras superproduções – e mesmo de filmes independentes – ligados à afirmação identitária das populações negras.
Mas o difícil é despertar o mesmo interesse por Shuri, que vai assumir o manto de Panther, ao se julgar a falta de viço na atuação de Letitia, que não consegue ir além dos rascunhos existenciais da personagem, reduzindo-a a uma figura insossa. O mesmo vale para a figura da heroína Ironheart, alter ego da estudante Riri Williams, encarnado sem qualquer brilhantismo por Dominique Thorne. As duas heroínas são ofuscadas por Bassett e pela inteligente releitura que o filme, amparado na inteligência cénica que Tenoch Huerta faz de Namor, a partir das bandas-desenhadas de Bill Everett, de 1939. Toda a natureza bipolar e toda a arrogância da personagem explodem no filme de Coogler, que decola em alguns pontos e tropeça em muitos outros. Mas, com todos os seus tropeços, a produção consegue homenagear Chadwick com carinho.




















