Estruturado sob forte influência da cultura radiofónica, o que justifica a sua natureza palavrosa, tão calcada em massas de diálogos, o cinema clássico-narrativo da América do Sul, feito entre os anos 1930 e as ditaduras militares que o solaparam, apostaram, no Brasil e na Argentina, em um formato que era ouro para os exibidores: a chanchada. O termo, forjado por vozes de uma intelectualidade de expressão mais elitista, é uma corruptela do italiano cianciata, que significa “discurso incontinente, excessivo”, traduzido no uso coloquial como “discurso sem sentido”. Essa é a expressão que designa produção brasileiras, como O Homem do Sputnik(1959), ou portenhas, como Cleopatra era Cándida (1964), marcadas por uma linha central.

Essa linha: toda chanchada (a maioria de tom musical) é uma crônica de costumes que capta as vicissitudes das pessoas pobres ou da fase de emergência na pirâmide social que são forçadas a encarar alguma mudança nos seus parâmetros de comportamento, nos seus hábitos. Era, logo, um filão que comunicava instantaneamente com as massas, pautadas num dispositivo de escrita de guião que poderia ser definido assim: “Frase 1; frase 2; frase 2; piada”. Ou seja, a “moça” suspira, o herói a ampara; o vilão retruca; o “palhaço” (no caso, o comediante) comenta, em forma de piada. Era assim com Oscaito. Era assim (parcialmente) no México de Cantinflas, fora do eixo sul das Américas. É assim hoje com Adrián Suar, ator que deu ao 37º Festival de Mar Del Plata um presente em forma de pura leveza (e profunda segurança na direção de um set) numa homenagem a essa tradição de outrora. Um presente que se chama 30 Noches Com Mi Ex.  

O filme foi um fenómeno comercial na capital argentina e arredores, antes de o evento começar. Destronou até blockbusters dos EUA e ajudou os demais produtos da indústria bonaerense. Lançado em circuito em Buenos Aires e arredores em outubro, pouco antes de estrear na Amazon Prime e de ser escolhido para representar o país na caça a uma vaga na corrida ao Oscar, o thriller de tribunal Argentina, 1985, com Ricardo Darín, teve 800 mil espectadores em três semanas em cartaz . Movimentou um circuito exibidor que já vinha em alta graças a uma das fitas mais divertidas do ano, mesmo formulaica, como boa parte daquilo em que Suar atua. Mas existe viço (leia-se “alma”) em 30 Noches Con Mi Ex, que em dois meses levou 790 mil pagantes a assistirem a passagem de Suar à realização.

Fotografado com esmero nas cores pela lenda Félix Monti (do vencedor do Oscar O Segredo dos Seus Olhos), o filme se encaixa no rótulo“neochanchada”. O termo nasceu no Brasil, em 2012, em meio a uma retrospectiva na Caixa Cultural, realizada por Marcelo Laffite, na qual se batizou assim a narrativa que cómica que promove a crónica dos costumes de novas classes sociais emergentes, como é o caso de Até Que a Sorte Nos Separe e De Pernas Pro Ar. É bem parecido com o que se fazia de 1934-1964, e, depois, nos anos 1970, na chamada pornochanchada (onde o erotismo galopava no cronismo comportamental). A diferença é o foco nas mudanças do mundo em função das evoluções (e involuções) comerciais inerentes ao capitalismo. Suar é a força desse formato entre nuestros hermanos, a se destacar Me Casé Con Un Boludo (2016), um ímã de risos traduzido como Roteiro de Casamento em terras brasileiras. Tudo o que ele faz, no teatro e no cinema, como astro, segue essa linha. Logo, ao se transformar em cineasta, ele optou pelo mesmo registo.  

O seu desempenho como realizador de tramas afetivas tocantes é impecável em 30 Noites Com Meu Ex, assim como o seu desempenho em frente às câmaras ao lado da gigante do riso Pilar Gamboa, brilhante em cena. Os dois lembram Lily Tomlin e Steve Martin, nos anos 1980. Eles vivem um casal separado há três anos, com uma filha já adulta, Ema (Rocío Hernández). Ele, Turbo, é um investidor de sucesso na bolsa de valores. Ela, Loba, é uma cantora. Mas a vida colapsou depois dela passar por um surto esquizofrénico do qual ainda não se recuperou. A fim de ajudá-la, a psiquiatra recomenda que Loba passe um mês a morar com Turbo. No roteiro (hilário) escrito por Javier Gross, esse regresso dela ao lar gera um desastre atrás do outro.

Nada que se veja pelas lentes guiadas por Suar soa novo. Tem um perfume de lugar comum no ar e uma abordagem que pode soar caricata de pacientes com distúrbios psiquiátricos. Mas o que Mar Del Plata viu e aplaudiu é um caso de clichês muito bem utilizados. É fast food, sim, mas com o tempero de uma saborosa empanada.  

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
30-noches-con-mi-ex-neochanchada-portenhaO que o Festival de Mar Del Plata viu e aplaudiu é um caso de clichês muito bem utilizados