Lançado mundialmente durante o BFI London Film Festival, no Reino Unido, em outubro, a funérea versão do mexicano Guillermo Del Toro para o livro Pinocchio (1883), de Carlo Collodi  Lorenzini (1826-1890) e Enrico Mazzanti (1850-1910), fez uma passagem por Mar Del Plata uns 30 dias antes da sua chegada ao streaming, sob o selo da Netflix, que viabilizou os recursos de produção ao realizador de A Forma da Água (Leão de Ouro de 2017).

Tal qual fez no filme sobre o tritão apaixonado por Sally Hawkins, pelo qual ganhou dois Oscars, o autor aposta num olhar humanizado sobre criaturas aparentemente monstruosas e trata com traço de fera os humanos embevecidos pela intolerância, como Benito Mussolini (1883-1945). Sim, Il Duce aparece na versão dessa fábula sobre o mau-comportamento infantil, pois o cineasta usa a II Guerra Mundial como arena histórica da sua releitura, tal como fez em “Pan’s Labyrinth”, pelo qual concorreu à Palma de Ouro, em 2006. A sua reconstituição do texto de Collodi evoca o que Francis Ford Coppola fez, há 20 anos, com o Drácula de Bram Stoker, tirando-lhe a capa expressionista de Bela Lugosi e dando-lhe fleumas de um Gary Oldman ultrarromântico e existencialista, sempre de cartola. O visual estilizado da Disney, colorido, com roupinhas de aluno de liceu, dada à personagem saiu, deixando-o mais próximo do olhar telúrico de Del Toro sobre a fantasia.

Correalizado por Mark Gustafson (da série “The PJs”), Pinocchioapoia-se numa direção de arte exuberante, conectada até a essência com a estética sombria das várias fases de Del Toro, indo de El Espinazo Del Diablo (2001) a Crimson Peak (2015), sempre num look amadeirado. A opção pela técnica do stop motion, na qual objetos são animados quadro a quadro, dando uma sensação de movimento, exponencia ao Infinito o acabamento dos bonecos usados para dar volume e vivacidade a uma narrativa moralizante. Tudo é tão Del Toro, tão particularmente inerente ao universo formal do cineasta, que a longa-metragem (talhada para as estatuetas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood) em nada ofusca a recente (e bem autoral) versão de Matteo Garrone, com Roberto Benigni de Geppetto, lançada durante a Berlinale de 2020. O mesmo não pode se dizer da vergonha que Robert Zemeckis fez, com base na mesma trama (só que sem identidade autoral e com preguiça plena) para a Disney +. Nesse, há pura repetição de fórmulas (e repetição até de Tom Hanks, no papel de Geppetto), enquanto em Del Toro há invenção. Além de haver um inteligente uso dos códigos do musical e da aventura.

A partir de uma banda-sonora composta por Alexandre Desplat, Del Toro confia as melhores músicas… e as melhores coreografias… e os melhores diálogos para Ewan McGregor, que dá voz (e alma) a Sebastian J. Cricket, o Grilo Falante em português, que serve como narrador (só que uma versão muito singular de narrador, que não pode ser explicada, para evitar spoilers). É ele quem vê a luta de Geppetto (David Bradley) para criar uma criança a partir de um tronco a fim de suprir a sua solidão e domar o luto, produzido pela morte do filho, Carlo, à força de bombas da luta entre o Eixo de Mussolini e os Aliados.

É de uma coragem singular a forma que Del Toro adota para falar da finitude numa narrativa pensada para crianças. Forças fascistas, rejeição e rapinagem são apresentadas à plateia infantil sem meias verdades e sem metáforas, numa abordagem frontal e cru. Até uma fada angelical (na voz de Tilda Swinton) que faz de Pinóquio uma prosopopeia – ou seja, dá ânimo vital a um ser de pau – parece uma esfinge tebana, parecendo assustadora, evocando o Fauno de Pan’s Labyrinth. É mais uma assinatura (em evidência) de um realizador-autor em estado de graça, que assina o guião ao lado de Patrick McHale e Matthew Robbins, renovando um signo fabular a partir de um diálogo com a artesania do cinema.                     

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
guillermo-del-toros-pinocchio-sem-rastos-da-disney Tudo é tão Del Toro, tão particularmente inerente ao universo formal do cineasta, que a longa-metragem em nada ofusca a recente versão de Matteo Garrone,