Elevado a uma instância de apogeu no início da década passada, a partir da consagração de “Estrada para Ythaca” na Mostra de Tiradentes, e do fenómeno popular de Halder Gomes (realizador de “O Shaolim do Sertão“), o cinema do Ceará não se aquietou no lampejo das invenções. Além de ver florescer o Cine Ceará, o seu principal festival, o estado onde nasceram génios do riso – como Chico Anysio e Renato “Didi” Aragão – seguiu a frutificar o audiovisual, indo à Berlinale (com “Greta“) e firmando Petrus Cariry como uma das suas principais vozes. E uma estratégia daquele canteiro criativo que começa a reverberar pelo Brasil agora, a partir da 46. ª Mostra de São Paulo é o casamento entre uma vertente popular narrativa (na veia do melodrama) e a inquietação das longas-metragens pautadas pelo risco. É o caso do doído “A Filha do Palhaço“.

É difícil lembrar de uma atuação masculina em uma produção brasileira mais visceral que a de Demick Lopes, capaz de levar as plateias ao pranto. E a uma catarse sábia.
O tal Cine Ceará que é um dos orgulhos daquela terra coroou a sua forma de encarnar a dor de uma paternidade tardia, regada a canções de Joana e Márcio Greyck (ícones do cancioneiro romântico), com o troféu de Melhor Ator. Há nele, no papel do ator e do comediante stand-up Renato, doses de fel e de mel. Doses servidas com ternura por Pedro Diógenes.
Integrante do coletivo que reoxigenou as artérias do cinema brasileiro em 2010, com o já citado “Estrada para Ythaca”, Diógenes tornou-se uma das vozes mais potentes do Ceará nas telas, na atualidade, correndo o mundo com longas que casam (bem) emoção e pesquisa. O universo que ele explora agora, no seu exercício autoral (sempre falando da solidão) é a seara dos artistas circenses, homenageados na trupe de personagens do seu “A Filha do Palhaço”.
Na trama, Joana (Lis Sutter), uma adolescente de 14 anos, aparece para passar uma semana com o pai, Renato (Demick), um humorista que apresenta seus shows em churrascarias, bares e casas noturnas de Fortaleza. Ele ganha a vida a interpretar a personagem Silvanelly, uma mistura de cantora e clown, com Almodóvar nas veias. Apesar de mal se conhecerem, pai e filha terão que conviver durante essa semana, quando vivem novas experiências e sentimentos. Esse tempo juntos vai transformar profundamente a vida dos dois. E o público se transforma junto deles, sobretudo quando é embevecido pela afiada direção de arte de Thaís de Campos. A fotografia de Victor de Melo jamais se assanha e entra em modo exibicionismo. Tudo é conduzido pela força dos diálogos e pelo olhar ferido de Renato, nas pálpebras cheias de vida de Demick. É um filme se maturidade, fiel ao filão dos reencontros paternos.




















