Depois de duas superproduções que lhe renderam milhões, “Spectre” (2015) e “1917” (2019), o r inglês Samuel Alexander Mendes resolveu espreitar o universo dos pequenos gestos e regressar à medula autoral dos painéis comportamentais sociais que o consagraram (e lhe deram o Oscar, em 2000, com “Beleza Americana”, falando da sua Inglaterra sob o prisma da cinefilia. Uma espécie de “The Purple Rose Of Cairo” às avessas, o seu mimoso “Empire of Light”, aplaudido em Telluride e no TIFF, no início de setembro, abriu o 24º Festival do Rio, abarrotando o Cine Odeon. Existe uma expressão cunhada pelo crítico brasileiro Sérgio Augusto que diz que “o cinema é a solidão de um motel platónico”, referindo-se aos quartos de hotel para encontros breves, entre amantes ou namorados. Ele cunhou essa analogia nos anos 1980, quando Mia Farrow foi se entorpecer da Grande Depressão do crash da Bolsa de NY ao ver Fred Astaire. Mas, em Mendes, no mais delicado Mendes desde “Revolutionary Road”, de 2008, o entorpecimento tarda a aparecer. O que parece ser um filme de amor(es) como “Cinema Paradiso”, é um estudo do Reino Unido de Thatcher, sobretudo na esfera dos descalabros sociais que fomentam a intolerância, gerando o ódio.
O guião é complexo, com múltiplos declives, por vezes falésias, numa geografia emotiva que parecia uma planície lisa, devotada ao querer, numa viagem no tempo até 1981. O trailer vende uma paixão suspirante da gerente do Cine Empire, a solitária Hilary (Olivia Colman, estupenda), pelo jovem funcionário da sala exibidora, Stephen (um preciso Michael Ward), aspirante a universitário. Os dois vão, sim, viver um querer agudo. Mas ela vai compor com ele um quadrilátero de quereres, pois tem um compromisso de longa daata com uma esquizofrenia, além de um namorico com o dono do Empire, o Sr. Ellis, papel que Colin Firth devor, regurgitando sequências memoráveis.

Mas a narrativa, fotografada com todo o rebuscamento de Roger Deakins (notável sobretudo nos planos abertos), investe em outros eixos. O racismo é um deles. Stephen sofre ferozmente o ódio dos skinheads, que é alimentado pelos deslizes económicos que deixam a Inglaterra sem empregos. Mesmo na cidadezinha litoral onde a trama se desenvolve, a falta de trabalho é forte. E mais forte ainda é a segregação.
Existe ainda o elemento mais sensível de celebração da sala de exibição como espaço de troca de gentilezas e de amores. Toby Jones esbanja sabedoria na pele de um projecionista que leva “Stir Crazy” (1980), com Richard Pryor e Gene Wilder, a um público de aficionados pop. Lá vê-se “Chariots of Fire” numa situação tensa e se presta tributo a Hal Ashby, pelos filmes e pela conexão com Cat Stevens, tornando a estética de Mendes mais doce. Mas a ternura não lhe tira o tétano de uma lâmina moral pontiaguda, rasgando o ventre da História inglesa recente sem dó nem piedade.




















