Último dos concorrentes à Concha de Ouro a ser anunciado por San Sebastián e o último dos 17 nomeados à láurea do septuagenário festival a ser projetado na sala Kursaal, “A Woman” é uma afirmação de olhar sociológico do cinema chinês no território que, lá atrás, nos anos 1980, no seu desabrochar nos ecrãs do mundo, com Zhang Yimou (“Sorgo Vermelho“), aquela nação mais investiu: a luta das mulheres por respeito e liberdade. Engenhoso na sua montagem elíptica, a adaptação para os ecrãs do livro “Dream“, da romancista Zhang Xiu Zhen, ilustra a maturidade do cineasta Wang Chao (de “Luxury Car“) no trato com os códigos das crónicas de costumes – o filão preferido da China autoral – e dos painéis geracionais. E o desempenho de Shen Shi Yu como protagonista é arrebatador.
Chamada de “Kong Xiu” na sua pátria, “A Woman” começa em 1967, sob os espectros do maoismo, com uma série de saudações ao camarada Mao por todos os planos iniciais, até adotar o calvário afetivo de uma operária da indústria têxtil, a própria Xiu Zhen, como foco. Entre a década de 1960 e os anos 1990, vemos a personagem central se casar (mal) duas vezes, ter três filhos nas mais difíceis situações de saúde financeira, e iniciar os estudos de literatura, ao acreditar na tese de que escreve e fabula bem. O respeito que tem pelas ideias da Revolução faz com que o governo veja a sua perseverança com os melhores olhos. Mas uma sucessão de desastres emotivos vão acidentar o seu caminho, o que fortalece a escrita, com o passar do tempo.
Chao faz o filme numa toada da brandura: nada resvala no sensacionalismo ou em arroubos trágicos. A fotografia também filtra excessos a fim de evitar saturações. E a banda-sonora é usada com sabedoria, de modo a acentuar situações de melodrama sem pesar nas lágrimas. É um filme sóbrio, de maestria técnica, dedicado a fazer um raio-x existencial de uma mulher que sofre com o egoísmo e com o sexismo dos seus parceiros, mas não deixa de sonhar. Nem de lutar. É, portanto, um filme que sabe se sintonizar com os pleitos femininos do presente com plena eficácia, sem incorrer em desrespeito com a representação da alma masculina.
Poeticamente, “A Woman” impõe-se como um ensaio sobre a espera, ao observar, subtilmente, a forma como uma trabalhadora acossada pela aspereza da vida, aguarda a hora certa de exercitar sem lirismo. E fa-lo sempre atenta ao amor materno que precisa esmerilhar mesmo nas condições mais brutas.




















