Indigesto para os fãs do celebrado “The Long Goodbye” (1973), com Eliott Gould, que tinha um tónus existencial de crónica moral sobre a derrota, “Marlowe“, filme de Neil Jordan que fechou o 70º Festival de San Sebastián, funciona (e muito) como narrativa de ação, mas burocratiza as convenções do noir. É como se o realizador de “The Crying Game” (1992) tivesse oferecido a sua estética ainda exuberante aos algoritmos usados nos thrillers com Liam Neeson. É ele quem encarna o detetive de aluguer catapultado para ao estrelato, na prosa policial, a partir de 1939, à força da destreza do seu criador, Raymond Chandler (1888 — 1959), com verbos e advérbios.
O Neeson de “Taken” coloca-se à vontade no modo de Jordan esmiuçar um género pautado pela ambiguidade. Juntos, os dois levaram o Leão de Ouro de 1996 para a Irlanda. E o carisma do ator – que se reinventou nos anos 2000 como uma espécie de Charles Bronson – ajuda a atrair a atenção para um cineasta cujo prestígio se esbateu depois de escolhas de trama fracas (“Ondine” e em realizações burocráticas (“Greta“). Mas o estilo destilado a partir de “Angel“, há 40 anos, segue em dia, assim como o apreço por temas tabus.
A sua matéria dramática aqui vem do romance “The Black-Eyed Blonde“, lançado pelo aclamado John Banville (“O Mar“) sob o pseudónimo de Benjamin Black, em 2014. Nas páginas desse tenso livro, ele revive o Marlowe de Chandler nos anos 1950, tornando-o cansado da maldade humana (mas não menos brutal). Uma femme fatale bem convencional, herdeira de um estúdio de cinema e filha de uma milionária excêntrica, põe uma oferta para Marlowe, em dinheiro do bom, para que ele a ajude a encontrar um homem com quem vive um affair. Um homem cujo desaparecimento encobre um enredo que envolve políticos, clubes de sexo e uma relíquia na forma de sereia.
Jordan filma o livro tal qual Banville o fez, dando só uma descarga pesada (e catártica) de adrenalina – elemento químico do qual os festivais de cinema carece. Diane Kruger vive a tal loura que contrata Marlowe sem nada acrescentar ao arquétipo. Só Adewale Akinnuoye-Agbaje dá um gás de personalidade ao elenco, no papel de um motorista com boa pontaria. Cabe à fotografia de Xavi Giménez e à banda-sonora de David Holmes encapar a longa-metragem de elegância. De resto, fica um noir bem trivial, que rende uns trocos a Neeson.















