Assim como “8½” (1963) abre com uma sequência onírica (ou seria desesperada?) de um homem a alçar voo, amarrado a uma corda, seguido por um rasante de Marcello Mastroianni até à sua consciência, “Bardo. Falsa crónica de unas cuantas verdades” arranca ecrã afora com a sombra do jornalista e documentarista Silverio (interpretado por um Daniel Giménez Cacho em estado de graça) a flanar no céu. O verbo “voar” conecta essa nova (e confessional) longa-metragem do mexicano Alejandro G.(onzález) Iñárritu com a magistral análise de Fellini sobre a crise criativa na criação artística – e sobre o lugar da vaidade na representação e vida social.

Ao longo de suas irregularíssimas 2h e 54 minutos, a produção que o realizador de “Biutiful” (2010) elaborou sob a égide da Netflix conversa com o clássico felliniano sobre Guido Anselmi (Mastroianni) muitas vezes e de muitas formas, inclusive no visual elegante, de terno preto, de Silverio. Some-se a isso o facto dos dois trabalharem com cinema. Guido era mulherengo. Não é esse o caso da personagem de Iñarritu, que, casado, esbanja libido pela sua mulher, com quem faz joguinhos eróticos, correndo pelos corredores da casa. Divergências surgem também no tipo de filmes que os dois realizam. Anselmi, como Federico F., filmava sonhos e alegorias da ilusão que nos entorpecem e nos despedaçam, em exercícios de nostalgia, de “io mi ricordo” qual “Amarcord” (1973). Já o Frederick Wiseman do México filma não ficções sobre as misérias da América Latina, fazendo da pobreza humana o carvão que alimenta as fornalhas da cosmética da fome pela qual é reconhecido.

Daí o filme descola (ou quase). Silverio será premiado em Los Angeles por serviços prestados ao Jornalismo e às narrativas documentais. Esse é o incidente incitante (a fagulha) que incendeia a trama de “Bardo”, a promessa da tal cerimónia é o mote para que oa personagem de Cacho se autoanalise, num divã afetivo e existencial. Um divã que se confunde com a própria vivência de Iñárritu, dando um aspecto tridimensional e confessional ao filme. Conflitos na relação com os filhos; acusações de idealizar de modo paternalista a miséria; um histórico na Publicidade; um pretérito quase perfeito no Japão; o apelido El Negro: Iñarritu compartilhou tudo isso com Silverio, fazendo dele um alter ego. Até a tal láurea honorária em LA é um reflexo dos Oscars que Alejandro G. recebeu por “Birdman”, em 2015, e por “The Revenant”, em 2016, sem contar o Prémio de Melhor Realização conquistado em Cannes por “Babel”. Mas essa interseção de alter ego é algo que Cacho esculpe com liberdade. E humor.

Queixumes, que mais parecem um mea culpa de Iñarritu, embotam, por vezes, a dinâmica de ação de Silverio, tornando o guião de “Bardo” quase pueril, enfadando a aeróbica de câmara que Iñarritu faz nos seus enquadramentos. O que mais ilumina o filme são as citações cheias de veneno à política imperialista entre México e EUA, numa relação de servilismo calcado num paralelismo entre cordeiro e ave de rapina, digno do que Nietzsche escrevia em sua filosofia acerca do vício da submissão. E há uma sequência de festa numa discoteca, ao som de versos de Bowie, fotografada por Darius Khondji, com Cacho dançando, capaz de desafiar as leis da física e colocar no chinelo as farras de “A Grande Beleza” (2013), de Paolo Sorrentino. Aliás, Silverio é um misantropo como Jep Gambardella, o também jornalista vivido por Toni Servillo no oscarizado filme (felliniano) de Sorrentino. Só que lá, na Roma de Fellini, a paisagem da cidade distrai os seus habitantes. A paisagem mexicana que Iñarritu enquadra é algo que assombra nas suas contradições. Contradições que ele denuncia com mestria desde seu seminal “Amores Perros” (2000). Pena que, em “Bardo”, tenha se deixado embevecer demais pela sua própria persona.

Nomeado ao Leão de Ouro de Veneza, “Bardo” estreia no México no dia 27 de outubro e segue para o streaming entre 4 de novembro e 16 de dezembro, de olho no Oscar.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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