Ao trafegar do Chile das lutas feministas de equidade de géneros e das pelejas LGBTQIA+ por respeito para a Irlanda do século XIX, Sebastián Lelio leva consigo um microscópio político – simbólico – com o qual observa as células intolerantes por trás da microfísica do poder sexista desde a sua estreia como realizador, em 1995. É no Velho Mundo, em 1859, que ele ambienta o seu regresso, com “The Wonder”, uma produção com selo Netflix que arrancou uma salva de aplausos visceral na sua exibição no 70º Festival de San Sebastián.
Dos títulos em disputa pela Concha de Ouro de 2022 foi o mais aclamado, entre os que já foram projetados – falta Hong Sangsoo, e seu “Walk Up”. A conexão instantânea entre o desenho tridimensional da personagem oferecida a uma afiadíssima Florence Pugh (a enfermeira viúva Lib) e a cantora de “Uma Mulher Fantástica” (pelo qual recebeu o prémio de melhor guião na Berlinale 2017 e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) ganhou, de caras, a adesão da plateia. O seu agridoce “Gloria” (2013), refilmado por ele mesmo, nos EUA, em 2018, como “Gloria Bell”, são também evocações instantâneas. Lib é a súmula do empoderamento de que Lelio sempre fala. O que dá uma singularidade ao seu novo trabalho é a maneira como a sua direção minimalista, sem exibicionismos de movimentações de câmara, oxigena o seu diálogo com os códigos do thriller investigativo (e psicológico). Um filão que nasce entre os gregos, com “Édipo Rei”.
A Tebas de Lelio é a paisagem rural irlandesa de 1859, decalcada do romance “The Wonder” (em Portugal “O Prodígio”), de Emma Donoghue. A adaptação, escrita por Alice Birch e pelo próprio cineasta, potencializa a natureza detetivesca nas entrelinhas da prosa de Emma, que vai a uma geografia acossada pela religião. Sob as sombras de uma leitura equivocada da Bíblia católica, substituindo a noção de perdão pela intolerância, aquela região esforça-se para saber (e entender) o que se passa com Anna O’Donnell (Kíla Lord Cassidy), uma adolescente que se recusa a comer, sem apetite algum, e, apesar disso, sobrevive há meses, aparentemente sem graves consequências físicas. A sua greve de fome pode ser um gesto miraculoso do Altíssimo, como creem os habitantes do vilarejo onde ela mora. Eis que as autoridades clericais e um alcaide encomendam de Inglaterra a vinda de uma profissional da Saúde, com pleno conhecimento de enfermagem, para cuidar da moça – e investigar o seu caso. Eis que chega Lib, uma mulher cética, abalada na sua relação com o Senhor pela morte precoce de seu bebé e o abandono do marido, a quem considera morto, assumindo um estado de viuvez.
Lib entra em cena qual Sean Connery em “O Nome da Rosa” (1986). Encara os sábios fariseus que a convocaram com olho no olho, sem aceitar ditames machistas. Despreza insinuações de charlatanismo e também as hipóteses mágicas que cercam o caso Anna O’Donnell. No seu ponto de vista, a menina está gravemente doente, e começa a definhar. Em vez de trata-la de modo distanciado, profissional, Lib vê na sua paciente a filha que não teve e desenvolve uma relação afetiva maternal, que amplia a sua coragem, mas não arrefece o seu intelecto.
É por meio de viragens (subtis) do guião que o filme sustenta a atenção dos espectadores, dando-lhes uma corajosa cartografia da brutalidade institucionalizada contra as mulheres, que usa o Sagrado como desculpa para pecados mortais. Estonteante, a direção de arte de Til Frohlich, Daryn McLaughlan e Lesley Oakley, realçada na fotografia de vermelho acentuado da australiana Ari Wegner (de “Power of the Dog”), detalha o quanto geométrico é aquele feudo decimonónico onde os sintomas de Anna são vistos, não como bruxaria, mas como loucura. É algo parecido com o que se viu em “Agnes de Deus” (1985), de Norman Jewison, com Jane Fonda a bisbilhotar os segredos da freira que investiga. Florence é uma Jane Fonda menos leoa no filme de Lelio, mas compartilha com o filme de Jewison a intolerância a explicações que se escudam no Divino, no irracional. O seu instinto protetor é maior do que sua necessidade de se ajoelhar e agradecer aos Céus. E, nessa jornada para descobrir a verdade, ela anda discreta, a escancarar frestas há muito vedadas, incendiando o velho carvalho do suspense, com subtileza.




















