Pilar do humor no cinema pop inglês para massas, com o fenómeno “Love Actually” (2003) no seu currículo, Bill Nighy deu a voz e o carisma a um dos vilões mais assustadores de Hollywood neste século: o monstro dos mares Davy Jones da franquia “Piratas das Caraíbas“. Mas é pelas vias do drama – onde já havia brilhado antes, em títulos como “The Bookshop“, de Isabel Coixet – que ele encontra agora, aos 72 anos, uma renovação da sua persona nos ecrãs – e um convite ao Oscar. O drama em questão, que vem lhe abrindo portas nos maiores festivais do mundo desde Sundance, em janeiro, chama-se “Living” e nasce da releitura que o escritor Kazuo Ishiguro faz de um argumento de Akira Kurosawa (1910-1998), filmado pelo próprio no início dos anos 1950. Tal guião, escrito pelo responsável de “Os Sete Samurais” (1954) com Hidro Oguni e Shinobu Hashimoto, inspirou “Ikiru” (1952), traduzido em Portugal e no Brasil como “Viver“. É um verbo de ação que põe Nighy em modo reinvenção, no cenário atual da produção, na versão estruturada por Ishiguro, nas raias da leveza.

Quem assina este resgate da dramaturgia de Akira é o cineasta sul-africano Oliver Hermanus, que ganhou a Queer Palm de Cannes, em 2011, com o belo “Beauty“. Ele leva a trama do Japão para a Inglaterra do pós-Guerra, filtrando todo o farto ferramental cómico de Nighy de modo a criar uma figura intimista, submissa ao silêncio e à diplomacia. 

Com a classe e a fleuma de um Alec Guinness, Nighy vive Willams, um respeitado funcionário de uma repartição pública de uma Londres plúmbea, nos anos 1950. A fotografia (impecável) de Jamie Ramsay sublinha o clima ocre, sombrio dos ambientes por onde a personagem flana, ao descobrir que está com os dias contados, em função de um cancro. Mas a notícia não será o seu precipício e, sim, o trampolim para um movimento de procura pela alegria que, há tempos, perdeu.

A sua desconexão afetiva com o filho dói mais do que os efeitos das metástases. Mas a amizade que vai estabelecer com uma jovem (Aimee Lou Wood) e o empenho de reconstruir um parque para crianças hão de servir como bálsamo aos dias de angústia e pesar, convertendo o que poderia ser uma autópsia em corpo vivo numa celebração da esperança. E numa interpretação magistral, que dispensa excessos de overacting, pautada pela elegância.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
living-bill-nighy-no-trampolim-da-excelencia Esta releitura que o escritor Kazuo Ishiguro faz de um argumento de Akira Kurosawa põe Bill Nighy em modo reinvenção