Alçado à condição de compositor respeitado, na indústria europeia da ópera, no século XVIII, o checo József Mysliveček (1737-1781) desafiou as convenções da música italiana, onde fincou raízes, em busca do sucesso profissional, apoiado no prestígio de peças musicais como “Il Bellerofonte“, de 1765. Mas o biopic inspirado pela sua trajetória criativa está menos interessado no seu requinte estético e mais encantado pela perversão do mundo em que ele forjou a sua fama, além das suas obsessões.

Il Boemo“, título da cinebiografia, realizado por Petr Václav com uma mescla rara e de harmonia da sumptuosidade formal e intimismo, compartilhou o encanto que o músico transmite ao mundo melómano para as plateias do Festival de San Sebastián. A sua projeção, na luta pela Concha de Ouro de 2022, comoveu o público, ao mesmo tempo em que a produção se converteu num dos títulos mais disputados pelo mercado distribuidor do Velho Mundo. A direção de arte é de uma elegância notável e o mesmo pode se dizer da sua engenharia de som. É um espetáculo que se reporta a filmes de culto como “Amadeus” (1984), de Milos Forman, sobretudo pela citação a Mozart.

Mundialmente premiado por “We Are Never Alone” (2016), Václav faz um painel de época com base na ambição. Fruto de uma realidade pobre, József Mysliveček agarra-se ao sonho de subir de vida apesar da dificuldade que enfrenta, na competição com uma nova geração de poetas e compositores. Mas, o seu talento e fúria são irrefreáveis. Ao despertar a atenção de uma jovem que pode lhe abrir as portas dos apreciadores de ópera, ele agarra a chance com selvageria, atropelando rivais.

Com uma interpretação visceral, Vojtěch Dyk constrói a figura de Mysliveček como um criador inquieto, empenhado em deixar um legado para a História. A entrega do ator ao papel amplia a potência do protagonista e abre, a partir do seu desenho, um ensaio sobre a ambição. E, nesse ensaio, o cineasta explora anomalias simbólicas de um universo que parecia na contramão do Iluminismo e do espírito renovador que gerou a Revolução Francesa e a Industrial. O perfil de József está nas telas, amplo e detalhado. Mas não são os passos largos da sua cruzada artística que nos guiam e, sim, o seu instinto de sobrevivência de ética por vezes torta.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
il-bomeo-exuberante-ensaio-sobre-a-ambicaoEste biopic inspirado na trajetória criativa de József Mysliveček está menos interessado no seu requinte estético e mais encantado pela perversão do mundo em que ele forjou a sua fama