Luto é um assunto que mobiliza os cineastas da Escandinávia, falando da Morte pela hipótese ou pela concretude, com se viu recentemente em “Ficaremos Bem” (“Håp”), da norueguesa Maria Sødahl, e “Druk – Mais Uma Rodada” (“Another Round”), do dinamarquês Thomas Vinterberg. A perda não é vista, aos olhos das vozes autorais escandinavas, como precipício, ao contrário da representação hollywoodiana (qual “Rabbit Hole”), mas como um trampolim para a redenção do recomeço.
Foi o que o 70º Festival de San Sebastián constatou ao se comover com “Resten af Livet” (ou “Forever”), de Frelle Petersen, um drama vindo da Dinamarca. Na nova disposição de láureas do evento, que unifica os prémios de interpretação sem distinção de género, concedendo um troféu a protagonistas e outro a atuações em papéis secundários, a brilhante Jette Søndergaard pode sair do evento com um prémio pelo seu desempenho como Line, a auxiliar de uma escola para jovens com Síndroma de Down. O seu sonho é ser mãe. A sua rotina harmoniosa entra em crise com a morte súbita do irmão, Sønnen (vivido por Lasse Lorenzen), com quem tinha uma forte cumplicidade. O guião é de uma inteligência rara na forma como retrata as raízes afetivas desse clã, que busca a reivenção após o luto.
Há uma sequência devastadora de Sønnen e Line a devorarem batatas fritas e a falarem do quão boas foram as suas infâncias. É um momento de plena comunhão, em que a câmara do fotógrafo Jørgen Johansson (sempre calcada num colorido brando, sem rebuscamentos), vasculha aquele mundo atento ao equilíbrio sempre perfeito entre parentes, amigos e casais. Aí vem a morte, que não se explica. Elipses na montagem levam-nos já a um enterro e a um delicado ritual de reconstrução.
Saltamos entre as peripécias de Line e a rotina da mãe, Maren (Mette Munk Plum), e do pai, Egon (Ole Sørensen, esplendoroso em cena). O amor deles nunca é questionado e expressa-se, com leveza, numa sequência em que ela pede um beijo ao marido e noutra em que bebem cerveja após um brinde. Ela pratica desporto, dança… ele pesca e dedica-se à sua loja de café. Ninguém pára. Tudo segue. Mas não se fala em normalidade. Fala-se de dor.
Frelle já dera sinais de maturidade na realização de “Onkel”, de 2019, mas há mais poesia na sua proposta. A sua dinâmica avessa a derrotismos e catastrofismos é um analgésico para a plateia, mas prejudica a dramaturgia ao impedir que o guião avance na psique fraturada das personagens, sem explorar angústias existenciais em maior profundidade. Existe, sim, na trama, um corpo a corpo com a agonia da ausência, mas ela é feita com demasiado lirismo, diluindo a morbidez aparente da preissa.




















