Das 17 longas-metragens selecionadas para concorrer à Concha de Ouro de 2022, a curadoria de San Sebastián resolveu escolher uma produção com código postal nos Estados Unidos, mas que em nada conversa com as estéticas americanas da contemporaneidade – e mesmo do seu passado – seja na seara do cinema hollywoodiano, seja no campo da expressão indie, dando, assim, um pálido retrato doe seu país na competição principal.
“Runner”, candidato aos prémios espanhóis, promete uma duração curta (76 minutos), mas dura uma vida e um purgatório, com a sua montagem ralentada e planos loooongos mais preocupados em criar ambiência (e estilo) do que fazer andar uma dramaturgia de tom fúnebre. A narrativa de estreia de Marian Mathias (“Give Up The Ghost”) consegue despertar algum encanto plástico na fotografia gélida de Jomo Fray. A sua passagem pelo Festival de Toronto, no dia 9 de setembro, confirmou o quanto os seus enquadramentos são potentes, sobretudo no uso da cor. Mas a beleza com que o mundo rural dos USA é “emoldurado” por Jomo não dispõe da mesma virulência do guião, nem na sua edição.
Somos dragados, nos minutos iniciais pelas angústias de uma jovem mulher que enfrenta um futuro incerto após a morte do pai. Aos 18 anos, Haas (Hannah Schiller) foi criada por uma figura paterna rústica nas planícies do Missouri. Num ambiente perfumado pela religião, onde a palavra do pároco local é lei, o homem é encarado como um excêntrico, que confina a sua filha ao silêncio e à sofreguidão. Mas depois dele morrer, Haas é deixada com dívidas e com a tarefa de levar os restos mortais do pai para um recanto igualmente desolado. Nesse processo, trava amizade com o jovem Will (Darren Houle), que também carece de estabilidade financeira e afetiva. Juntos, vão construir uma parceria que a realizadora não faz avançar como poderia, deixando na sugestão o que pode ser amor, companheirismo ou apenas carência.
Embevecida com a imensidão natural à sua volta, a cineasta dá pouca atenção à complexidade da geografia existencial à sua frente. Resultado: gera um filme que nenhum micro-ondas de San Sebastián consegue aquecer. Haas é um tipo com muito a ser analisado, desde o abrir um debate sobre o sexismo que a cerca, até fomentar uma conversação sobre a primavera do desejo na chegada da idade adulta. Mas tudo parece perdido numa missão mortuária sem lirismo.




















