Assim que Tribeca anunciou as suas atrações deste ano, em meados de abril, a Dinamarca fincou a sua bandeira entre as promessas de excelência do festival nova-iorquino quando se candidatou ao rol de prémios da Competição de Internacional do evento com “A Matter of Trust” (Ingen Kender Dagen), fazendo jus ao seu título ao mexer com a confiança da cinefilia no talento mais do que comprovado da sua realizadora: Annette K. Olsen.
Só a série “Borgen” já seria o bastante para se confiar nela, mas a presença do belíssimo “Little Soldier” (Prémio do Júri Ecuménico da Berlinale 2008) no seu currículo dá um traço de excelência no seu repertório, e abre a porta da autoralidade nas análises (e na afirmação) do seu percurso como cineasta. Guiada por um instinto humanista e por uma delicadeza que jamais perde o seu rumo, Annette dialoga com os seus filmes pregressos – sobretudo com “In Your Hands“, de 2004 – ao enveredar pela equação sempre submissa ao valor de X (ou seja, do inesperado) estabelecida na soma das expectativas com os desencontros. E o faz com uma montagem meticulosa, assinada por Denniz Göl Bertelsen, harmonizando o tempo de cinco núcleo dramatúrgicos distintos, que não colidem, mas se aproximam por questões temáticas, sempre ligadas ao desamparo.
Além da imagem de marca que Annette se tornou, outros dois nomes ajudaram “A Matter of Trust” a se impor como uma isca para os holofotes de Tribeca em 2022. De um lado, a atriz Trine Dyrholm, que saiu da Berlinale em 2016 com a láurea de Melhor Interpretação por “The Commune“. Do outro lado, está Jakob Cedergren, quem atendia o telefone da polícia escandinava em “The Guilty” (2018). Os dois protagonizam os segmentos mais fortes desse poliedro de cinco vértices.
O segmento dela dá conta de uma impostura nas raias da diplomacia. Num voo da Dinamarca para o Afeganistão, onde um imigrante violento é levado à força, uma médica (Trine) encontra o seu compromisso com o juramento hipocrático testado por um sistema político nem sempre preocupado com o bem-estar alheio. O segmento dele tem lá seu quinhão de dor, mas é divertido ao analisar as aventuras extraconjugais. Cedergren é Adam, um homem casado que alega, em casa, ter um compromisso com palestras longe do lar para poder se refestelar nos braços de uma mulher conheceu num colóquio, a também comprometida Viyan (Ellaha Lack, que dá um espetáculo de timmig cómico). Quem atrapalha o idílio sexual desse quase casal é Hanne (Lisbet Dahl), que aluga o AirBnB para eles e se mostra impertinente.
Os risos que emergem daí perdem-se por completo nas demais premissas do guião. É o caso de um funeral no qual uma grávida recém-casada questiona o passado misterioso do seu marido. É o caso ainda de um rapaz vítima de bullying por parte dos colegas que procura conforto na companhia de um homem mais velho. E é, ainda, a situação de uma tensa relação entre mãe e filha numa praia.
Em cada um desses núcleos, o verbo “confiar” é posto em xeque. Mas Annette o faz sempre no limite da elegância, mesmo nas situações de mais vertigem e sangue exposto, sem nunca cruzar por completo as jardas da tragédia. O seu interesse parece ser mapear as angústias coloquiais da relação que estabelecemos com o próximo, transbordando os limites da deceção. Mas ela, na realização, jamais nos desaponta, mantendo-se fiel aos seus princípios de storyteller sem tropeçar em conceitos analíticos que matematizam o convício interpessoal e sem naufragar na sacarose.




















