Há 27 anos, a Pixar faz psicanálise em forma de cinema, ao ponto de em muitas vezes, dar mais valor a Freud do que aos Lumière, calcando o que pretende ser um espetáculo visual numa fórmula (supostamente) catártica de convidar a plateia a um divã, onde discute, com recorrência quase repetitiva, a questão da responsabilidade no livre arbítrio. A exuberância da sua dinâmica plástica com a computação gráfica, por vezes disfarça os princípios moralistas de acomodação das inércias da rotina (Soul) e a abnegação dos valores fundadores (como a cruel sequência de “Inside Out” do desapego do amigo imaginário). E, apesar de acertos que se tornaram obras seminais para a dramaturgia, na indústria da animação, como “Monsters Inc“. (2001) e “WALL-E” (2008), que é a sua obra-prima, o estúdio tem vindo a deslizar nos seus próprios clichês nos últimos dez anos, acumulando clones de si mesmo (“Incredibles 2“) e gestos políticos sem tónus (“Turning Red” e o sonífero “Luca“).

Nessa apatia, “Lightyear” surge como um manifesto de transgressão. Não é apenas um “Toy Story” (algo superestimado, como é o terceiro filme dessa milionária franquia sobre brinquedos que têm vida) e, sim, uma espécie de “Star Wars” encontra “Lost in Space“, ou seja, está mais concentrado em criar a sensação de vertigem, com perseguições (de facto) excitantes, do que em dar lições de moral. Estas salpicam o guião escrito por Matthew Aldrich, Jason Headley e (do seu realizador) Angus MacLane aqui e acolá, mas não desafiam a fórmula de aventura que liberta a empresa responsável por injetar tecnologia no castelo do Rato Mickey. No fundo, ela cumpre, enfim, o seu lema de ir “ao Infinito e além”.

Cocriador de “Finding Dory” (2016), MacLane assumiu a tarefa de fazer um filme sobre o herói de cinema que inspirou o boneco astronauta de Andy em “Toy Story” e fez dela um videojogo onde a nossa atenção é regada a adrenalina a toda a hora. Falta-lhe o factor surpresa na construção da trama, que tropeça em obviedades diversas. Mas apesar do gosto fast food de um “enredo de micro-ondas” (quer dizer: aqueceu, parece fresco), “Lightyear” conquista a nossa atenção como uma narrativa frenética, cujo maior acerto é a montagem feérica de Anthony Greenberg. Ele monta as sequências sempre valorizando um timbre eletrizante, mas deixa algum espaço para arejar o filme com reflexões sobre a lealdade e inclusão. E existe SOX, o genial robô gato que é um tsunami de tiradas cómicas e de gestos atrapalhados, além de Alisha Hawthorne, parceira de missões no espaço de Lightyear – que vai se tornar a sua comandante.

Num momento em que o argumento do filme espelha (de modo quase descarado) a mesma situação vista em “Interestellar” (2014), jóia sci-fi de Christopher Nolan, Buzz é catapultado para o futuro, cada vez em que passa algumas horas num voo, em busca de uma solução para tirar uma tripulação de um mundo cheio de perigos. O empuxo para que ele caia no padrão Disney de storytelling (ou seja, renúncia e sacrifício do desejo em nome do Bem) é a aparição de Zurg, um Darth Vader de segunda que já existia como boneco em “Toy Story“. Mas a maneira como Buzz vai combater Zurg, ao lado de SOX, garante diversão e tira a Pixar de um marasmo que alcançou ao longo da sua consagração. É como se a sessão de terapia estivesse a acabar. Aí… o inconsciente do Mickey é livre para brincar. E voar. Que façam algo similar com o xerife Woody.      

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
lightyear-liberdade-para-a-pixar-transgredir-as-suas-mordacasNão é apenas mais um "Toy Story" e, sim, uma espécie de "Star Wars" encontra "Lost in Space"