Desde o seu lançamento, em 1993, então sob a realização de Steven Spielberg, a franquia “Parque Jurássico” da Universal Pictures conseguiu totalizar 6,1 mil milhões nas bilheteiras mundiais, com pretensões de fazer esses números avançarem em “Jurassic World Dominion” (Mundo Jurássico: Domínio), que une, muito bem, dois hemisférios distintos que esta grife de génese biológica edificou ao longo dos cinco filmes anteriores. O primeiro era fabular e é o que realmente faz diferença no saldo estético, por carregar a dimensão Hans Christian Andersen que as narrativas spielberguianas têm. Ou seja, tudo em Spielberg tem um traço fabular ligado à preservação da família (ou à formação de uma célula familiar). Os demais eram aventuras corriqueiras, com quedas na tessitura plástica da cinessérie no pavoroso episódio III e no dececionante filme de 2018, “Fallen Kingdom“, em que J.A. Bayona abandonava a elegância habitual nos seus filmes ipara apostar numa narrativa genérica. Já o filme de 2015, “Jurassic World“, tinha força, ao dar uma reciclagem na proposta original de Spielberg de brincar com a construção de um parque temático de dinossauros. O seu realizador foi Colin Trevorrow, que atraiu a atenção da indústria com o filme independente “Safety Not Guaranteed” (2012), premiado em Sundance. A habilidade que ele teve em administrar adrenalina e afetividade era rara. Por isso, foi chamado novamente para a tarefa de realizador, para dar uma forma espetacular, mas devidamente emotiva, aquele que se propõe a ser o tomo final de uma saga derivada da literatura de Michael Crichton (1942-2008). Porém, a sua chegada encontra um guião que beira a esquizofrenia narrativa, em alguns pontos.
Há uma indisfarçável sensação de estarmos diante de um script Frankenstein, termo usado por guionistas para definir processos de escrita que juntam núcleos dramatúrgicos que não conseguem ligação. O problema central: a longa-metragem aparenta ser um filme catástrofe sobre uma invasão de dinossauros nas grandes cidades, mas também aparenta ser um filme sobre uma menina clone, Maisie (Isabella Sermon), que quer entender de onde vem e para que existe. E também aparenta ser uma reflexão nas franjas da Epistemologia sobre o mau uso da Ciência, expresso na criação do que aparentam ser os reais monstros a serem debelados: gafanhotos gigantes (o que não faz sentido algum, quando há tiranossauros e raptors!). E ainda tem um enredo à la “Indiana Jones” sobre o regresso do Dr. Alan Grant (Sam Neill) e o seu talvez romance com a Dra. Ellie (Laura Dern). Ou seja, é uma salganhada, que só não descaba totalmente para a inverosimilhança, ameaçando a suspensão da descrença, porque Trevorrow injeta baldes e mais baldes de tensão nas nossas veias. Ah… e sempre que Jeff Goldblum surge em cena, esbanjando carisma e visivelmente não levando nada daquilo a sério, reina o bom humor.
O que existe para ser entendido aí: os esforços de se recriar a presença dos dinossauros na Terra foram cooptados por uma empresa que deseja usar o seu material genético a fim de controlar uma série de atividades económicas no planeta. A criação dos (ridículos) gafanhotos gigantes são uma maneira de aumentar a fome no planeta e oferecer aos agricultores arruinados um tipo específico de sementes. Isso é uma premissa à moda do Dr. Silvana (o inimigo de Shazam nas BDs, que virou sinónimo de parvoíce) ou à moda Dr. Evil, némesis de Austin Powers. O que dá um pouco de credibilidade a isto é a atuação (surpreendente) de Campbell Scott no papel do capitalista que rege este teatro de marionetes genéticas.
No palco, voltam em cena o casal Claire (Bryce Dallas Howard, precisa) e Owen Grady (o vulcão Chris Pratt, capaz de vender gelo a esquimós com o seu carisma) e os paleontólogos Ellie e Grant. Ele, em especial, chega como um herói, bem lapidado na sabedoria de Sam Neill a brincar ao Harrison Ford. Claire e Grady querem salvar Maisie. Ellie e Grant querem parar aquela brincadeira demiúrgica que ameaça a preservação das espécies. E Goldblum… Esse quer troçar com tudo e todos e vale por si só o bilhete.
Na construção das sequências de ação, Trevorrow não erra e existem perseguições que fritam os nervos do público. A presença heroica de DeWanda Wise, no papel da piloto Kayla Watts, também sustenta a atmosfera de matiné desta longa-metragem, que se transforma numa montanha-russa com a montagem de Mark Sanger. Pena é que o guião soe tão desconexo.




















