Símbolo da luta antissexista no cinema americano, azeda com os clichês da representação por vezes redutora das mulheres, a realizadora Kelly Reichardt, nascida em Miami, há 58 anos, viu o seu prestígio crescer quilómetros pelo seu ativismo, sem nunca deixar que o foco em sua excelência narrativa se perdesse, preservando virtudes tão fortes no ofício de montadora quanto no de cineasta. A Carroça de Ouro que conquistou no início da Quinzena de Realizadores foi, de certa forma, um reconhecimento para as suas singularidades na edição das suas próprias histórias, como se viu em “Old Joy”, vencedor do Tigre de Ouro em Roterdão, em 2006. Mesmo a sua maneira de abordar os códigos do western, influenciada mais por Ida Lupino do que por John Ford ou Howard Hawks, tem uma peculiar estrutura de montagem, valorizando mais o diálogo e o rastreio do mundo à sua volta, do que a ação física ou a tensão psicológica. É o que se viu em “Meek’s Cutoff” (2010) e no recente “First Cow”, com o qual disputou o Urso de Ouro, antes da pandemia.

Porém, apesar de todo o arejamento da sua maneira de montar, Kelly raras vezes abre espaço nos seus filmes para a leveza, optando por um olhar de alerta às incongruências das relações interpessoais do que envolve o respeito às diferenças. Por isso, “Showing Up”, exibido na luta pela Palma de Ouro de Cannes, é quase um OVNI na sua filmografia, assumindo-se como comédia (chegando a ser hilariante em alguns pontos) ao propor uma crónica da cena das artes plásticas em Portland e o seu contexto universitário.

É difícil não pensar no divertido “The Meyerowitz Stories (New and Selected)” (2007), de Noah Baumbach, também conectado com o universo artístico de vernissages, ao navegar nas águas aparentemente brandas em que Kelly mergulha a sua habitual estrela, Michelle Williams, para seguir turbilhões criativos. Um pombo atacado por um gato faminto serve como metrónomo para medir os beats de um guião onde as excentricidades de uma instituição de ensino e dos instrutores a ela ligados são o foco. Michelle contém todas as ferramentas mais populistas que adquiriu fazendo espetáculos de massas (tal qual a franquia “Venom”) e se contém ao extremo ao criar a figura da escultora Lizzie. As ruínas à sua volta não estão prestes a entrar em avalanche e, tampouco, vão soterrá-la. Mas o desafio de completar as estátuas para uma nova exposição a solo mexe com o seu humor, com a sua paz e com a sua tolerância aos tipos tensos que cruzam o seu caminho.

A sua senhoria, Jo (a sempre brilhante Hong Chau), é a medida da sua angústia, sempre a cobrar, seja o aluguer ou a ordem. O seu felino de estimação é um tsunami de surpresas sempre que ela volta para casa e lhe oferece latas de delícias do mar, a mendigar o seu ronronar de afeto. Há um irmão com os parafusos soltos (John Magaro) e uma figura paterna chanfrada (Judd Hirsch, um ícone do cinema americano dos anos 1970 e 80) em pelo de instinto de autoproteção.

O que Kelly faz é nos levar a conhecer cada uma dessas pessoas nas suas liturgias sentimentais, para, a partir delas, permitir à plateia um meio de desbravar os bastidores das Belas Artes na sua dimensão emotiva. É um pouco o que Martin Scorsese fez com Rosana Arquette e Nick Nolte em “Life Lessons”, de “New York Stories” (1989). Mas lá havia um pico de tensão e de passionalidade. Kelly não chega lá, jamais. Mas entrega um filme sereno sobre almas sem serenidade alguma.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
showing-up-surpresa-bem-humorada-de-uma-artesa-da-montagem “Showing Up” é quase um OVNI na filmografia de Kelly Reichardt, assumindo-se como comédia ao propor uma crónica da cena das artes plásticas e o seu contexto universitário