Normalmente habituada em acompanhar histórias ambientadas em Moçambique, país onde cresceu até 1975, Margarida Cardoso aponta agora baterias para Angola através de “SITA – A Vida e o Tempo de Sita Valles”, um documentário sobre a dirigente estudantil, figura comunista e revolucionária angolana, com ascendência goesa, desaparecida (provavelmente fuzilada) após uma tentativa de insurreição (a 27 de Maio de 1977), perpetrada por uma ala do MPLA que se opunha ao rumo que Agostinho Neto estava a dar ao país no pós independência.
“SITA – A Vida e o Tempo de Sita Valles” nasceu, aliás, segundo a própria realizadora, durante as filmagens de “Yvone Kane”, a sua última longa-metragem de ficção, estreada em 2014, e cresceu partindo da questão:“o que poderia mover uma jovem da geração de 60/70 a dedicar-se de forma tão empenhada e crente na luta política?”.
Recorrendo a imagens de arquivo e entrevistas a figuras próximas de Sita Valles, com uma participação empenhada nos primórdios da democracia em Portugal e Angola, Cardoso traça o retrato de uma “super revolucionária” com ligação direta aos tempos a “ferro e fogo” na transição do colonialismo para a independência.
Com uma investigação vasta e uma exemplar recolha de material de arquivo, além da execução de entrevistas recentes que contextualizam, ponto a ponto, a interligação entre a vida de Sita e a de Angola, Margarida Cardoso cria um documentário fundamental do ponto de vista histórico, ainda que não deixe de apresentar alguns problemas na sua orquestração como cinema per se. A começar pela gímnica das cabeças falantes, que muitas vezes coloca o filme em modo reportagem de televisão, mas sobretudo uma notória dispersão e um atafulhar de informação sobre o período pós independência de Angola, o que frequentemente origina quebras de ritmo. Faltou o aparar de certos momentos, que tornariam “SITA – A Vida e o Tempo de Sita Valles” num documento mais compacto, direto e sem gorduras.




















