Experiente como produtora, Lena Karbe realiza o seu segundo documentário (o primeiro foi “Chinese Dreams”, feito para a televisão) incidindo sobre um grupo de três mulheres – Naledi, Qolile e Nkateko – que fazem parte da equipa de proteção de um parque natural (Greater Kruger Park), contra caçadores furtivos, na África do Sul.
Sem deslumbramentos formais e centrando o poder do seu filme em todas as frentes que essas mulheres têm de lidar, a realizadora faz um curioso objeto cinemático onde a intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação e discriminação se cruzam nos mais variados sentidos. É que além de uma história de emancipação no feminino, de ruptura com a pobreza, o desemprego e o tradicional papel de dona de casa, criando uma nova identidade como operacionais em jeito militar, este também é um conto de mulheres negras num ambiente de trabalho ainda dominado por brancos, tendo de provar que são um pouco mais que uma manobra de marketing.
Num outro nível, “Black Mambas” coloca ainda em suspenso o próprio conceito destes parques e reservas naturais e turísticas, simplesmente pelo facto de estes serem uma criação branca sem qualquer questionamento na época para as necessidades da população negra, maioritariamente pobre e a passar fome. Isso mesmo chega até nós através do depoimento anónimo de caçadores furtivos, que olham para estes locais ainda como um meio de dominação, um último reduto do velho sistema de apartheid.
E a pandemia Covid-19, que afastou o turismo da região e teve um efeito dramático na economia local, levando muitos às tais atividades criminosas, tem também o seu papel de relevo, viajando ainda a cineasta às histórias mais pessoais, ambições e desilusões destas mulheres que, quotidianamente, estão entregues a dinâmicas de poder tendenciosas e ao racismo institucional, que teima em desaparecer.



















