Responsável pela realização de 111 produções audiovisuais de 1991 até hoje, Takashi Miike é motivo de orgulho para a lógica industrial fabril que o Japão assumiu sobretudo após a sua reconstrução, pós Plano Marshall, com o fim da Segunda Guerra Mundial, assumindo, mesmo na Arte, um plano de metas que garantiu a subsistência do seu cinema. Além de impressionar pela qualidade, ele se fez (e se faz) notar por um código narrativo pop particularíssimo, que lhe abre conexões com as plateias juvenis, inclusive as mais nerds, dialogando (e até atualizando) as cartilhas dos filmes da máfia e dos samurais. Já fez obras-primas, como “Audition” (1999), “13 Assassins” (2010) e “First Love” (2019). Mas já teve seu trabalho vaiado, como foi a sessão de “Shield of Straw” em Cannes, em 2013. Aplausos e vaias são uma balança corriqueira para um artista que se arrisca no excesso: essa é a chave da sua obra. Miike é o artesão da desmesura, seja ela de sangue, de gargalhadas, de bestialidade ou mesmo da ousadia – mas, sempre, de cinemática. Não por acaso, ele é sempre comparado a Buster Keaton nas suas experiências. Mas há filmes em que ele galga o fosso do equívoco. O seu ponto mais baixo foi registado no 51º Festival de Roterdão, na projeção do desastre “The Mole Song: Final”. Nada para de pé.

A produção – exibida no Fantasporto 2022 –  encerra a trilogia iniciada com “Undercover Agent Reiji” (2014); seguida por “Hong Kong Capriccio” (2017). Desta vez, os inimigos são um grupo mafioso italiano que rondam o porto de Yokohama. Na trama, lançada comercialmente no Japão em dezembro, o realizador de “Ichi, The Killer” (2001) narra a mudança brusca na vida do agente Reiji Kikukawa (Tôma Ikuta) depois de ser nomeado para investigar a infiltração Mole. A sua missão é se infiltrar na maior organização da Yakuza do Japão e se aproximar de Shuho Todoroki (Kôichi Iwaki), que é o chefe dessa máfia. A missão final de Reiji, no seu trabalho como espião, é evitar o contrabando de 600 mil milhões de ienes em drogas, informando assim o que se passa na organização. Mas os seus instintos quase primitivos vão trair os atos e atropelar as suas escolhas, levando-o a escorregadelas.

Uma premissa dessas seria um convite ao humor, mas também a algumas situações de ação, elementos que Miike dirige como ninguém. Mas não é possível encontrar nem um nem o outro fora de uma sequência introdutória divertida que brinca com uma ereção do herói e um albatroz. De resto, uma direção de arte equivocada, de um colorido hiperbólico, num “amarelo hepatite”, besunta a tela através de situações rocambolescas para as quais o guião não consegue dar qualquer ordenação. Sobra apenas histeria… e tédio.   

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
the-mole-song-final-histeria-sem-riso-nem-adrenalinaUma direção de arte equivocada, de um colorido hiperbólico, num “amarelo hepatite”, besunta a tela através de situações rocambolescas para as quais o guião não consegue dar qualquer ordenação