A receção do mais recente filme de Albert Dupontel configura um curioso caso de estudo do contraste entre forma como a generalidade do público e da indústria (no caso a francesa) olha para o filme, e, por outro lado, a reação que tem provocado na critica um pouco por toda a parte. De uma maneira geral e com um exagero não muito distante da verdade, quem se cruza com uma crítica a “Adeus, Idiotas” fica com a sensação de que o filme protagonizado por Virginie Efira (ainda recentemente a vimos no não menos polémico “Benedetta”, ainda que aqui a polémica seja outra) e pelo próprio Dupontel (é um ator que também participa frequentemente nos seus filmes) ser o pior filme da história do cinema, uma espécie de “The Room”, mas com efeitos radioativos capaz de derreter o cérebro de quem teve a infeliz ideia de se deslocar a uma sala de cinema.

O filme conta a história de uma cabeleireira a quem é diagnosticada uma doença terminal, e que na fase final da sua vida se resolve a encontrar filho que nunca conheceu e que deu para adoção na adolescência. O que se segue é uma série de peripécias mais ou menos conseguidas, em que Dupontel cruza uma variedade de registos (farsa, comédia, thriller, e por aí fora) e que servem de pretexto para tocar numa data de temas, ainda que nunca os explore de forma propriamente mastigada: a nulidade da burocracia corporativa, a tentativa absurda com que tentamos dar algum sentido à vida, as amizades inesperadas que nos valem em momentos de aperto. Enfim, tudo coisas que afligem esse bicho esquisito que é o Humano.

É, se duvidas ainda restassem, um exemplo acabado do divórcio entre “público” e “crítica”, seja lá o que isso pode ainda na prática significar em pleno 2022. Em todo o caso, vale mesmo a pena ser o mais explícito possível, não vá a mensagem perder-se no meio do ruído: o entusiasmo do público não tem absolutamente nada a ver com a qualidade de um filme, ainda que o mesmo já não se possa dizer de toda a cena dos prémios do cinema. O que não se entende é a deslocação do pensamento critico sobre um filme para esferas que lhe são exteriores. E não se entende porque é precisamente uma estratégia que ironicamente contribui para a situação que a crítica mais irada vem a terreno combater, ainda que nem sempre disso tenha noção: a atrofia do sistema de valorização de uma obra de arte. O problema é o de uma rivalidade tão antiga quanto a própria autonomia do espaço público: de onde vem o capital cultural que faz determinado filme brilhar mais que os outros? A avaliar pelo que se lê nos jornais, dir-se-ia que o que se escreve pesa menos que um maço de notas, não é verdade? Uma tragédia.

Quanto a flime o Sr. Dupontel, temos que concordar que não é parecido com os filmes do Sr. Godard, ou do nosso conhecido Pedro Costa, nem tão pouco do (não, esse não) Manoel de Oliveira. É farinha de outra saca, com uma maturação mais demorada. Não o torna num bom filme, mas exprime qualquer coisa de importante sobre os dias de hoje: sobre as ansiedades coletivas, sobretudo sobre os mecanismos com apelo popular da representação desse “inconsciente coletivo”. Maturação demorada, dizia, porque é preciso que o ódio que cerca este filme se dissipe de maneira a que o possamos olhar doutro modo.

Pontuação Geral
José Raposo
Rodrigo Fonseca
adeus-idiotas-o-pior-filme-do-mundo"Adeus, Idiotas" exprime qualquer coisa de importante sobre os dias de hoje: sobre as ansiedades coletivas, sobretudo sobre os mecanismos com apelo popular da representação desse “inconsciente coletivo”