Deslocados das tendências do entretenimento na década de 2010 e 2020, onde as salas de cinema – maioritariamente posicionadas em shoppings – cada vez mais mostram uma dependência dos filmes da Marvel e DC (Heróis e anti-heróis), Roland Emmerich e Michael Bay, duas das maiores figuras da indú$tria entre 1990-2010, tentam prosseguir com as suas carreiras com derivações do seu próprio trabalho, onde a explosividade da ação, as narrativas over the top e a lamechice sentimental continuam a ser o combustível que produz verdadeiras obras-primas na sua canastrice.
E se Roland Emmerich, no seu habitual terreno catastrofista, tentou este ano que a Lua não chocasse com a Terra, Bay responde com um thriller de ação onde assaltantes, polícias, paramédicos, médicos, ou qualquer outra figura em cena, é um cowboy por excelência regido por princípios éticos e morais muito próprios, que trafegam algures entre o patriotismo, o mercado livre e o apego à individualidade. E é por isso que um dos assaltantes de “Ambulance”, como é um antigo soldado injustiçado pelo lado selvagem do capitalismo, um pai de família zeloso e um bom marido (Yahya Abdul-Mateen II), tem um tratamento (e destino) distinto daquele que o seu comparsa, que por acaso é o irmão (Jake Gyllenhaal).
Na verdade, todo o filme revela um “moral high ground” que navega entre ideias liberais e conservadoras, fazendo o retrato de uma América confusa na definição dos seus valores nos tempos atuais. Veja-se por exemplo que Bay não tem pejo em colocar um agente do FBI homossexual, numa crise conjugal, a demonstrar afeto no grande ecrã, abalroando assim o conceito tradicional de família, mas momentos depois coloca uma esposa em diálogo com o marido a definir o que é um (bom) Homem, ou seja, aquele que cuida da família e dos seus (num sentido profundamente arcaico da figura do “chefe de família”). Este conceito de “família” não é muito diferente da de Dominic Toretto de “Velocidade Furiosa” [outro exemplo de “canastrice prime”], o qual fala sempre “dos seus” sem necessariamente associar biologia ao conceito. Porém, em Bay, essa família, esses “seus”, estendem-se a toda a uma simbologia da “liberdade” que defende os valores morais pilares da fundação dos EUA, numa visão que nem é assim tão diferente do cinema de Clint Eastwood no compasso moral das personagens.
Todos estes elementos estão no miolo do cinema de Bay, mas a forma como tudo isso é trabalhado e levado até ao espectador, ou seja, a aparência, é um lançamento permanente de foguetes e um apanhar das canas com o mesmo índice de espetacularidade. Falsos raccords, planos americanos e contra-plongée em catadupa, aliados a close-ups claustrofóbicos numa montagem exímia de cortes rápidos, aceleram o ritmo do filme até à taquicardia, numa mistura de linguagem de Cinema e de Videojogos, até ao ponto em que já é impossível distinguir uma da outra. Por isso mesmo, tantas vezes sentimos que estamos num verdadeiro GTA (Grand Theft Auto), com as personagens e gangues, com as suas marcas distintas identitárias, a colidirem com uma brutalidade das forças policias que leva a momentos completamente surreais. E simultaneamente estamos sempre num filme típico de Bay, com piadas internas a outros objectos assinados por ele no passado, como “The Rock” ou “Bad Boys“.
No final, Bay entrega assim um exercício de “canastrice prime” que parece ser até agora a única resposta da velha guarda aos tempos dominantes dos produtos baseados em comics. Não é o caminho mais belo e interessante que gostaríamos de seguir, mas não deixa de ter os seus méritos numa verdadeira luta pela sobrevivência de um certo tipo de filmes nas salas de cinema-pipoca.



















