A velocidade estonteante com que Steven Soderbergh faz filmes (6 em 4 anos) é equiparável ao ritmo elevado deste “Kimi”, mais um “micro-filme” do norte-americano, o qual mostra, efetivamente, que se existe alguém que nasceu para o mundo das plataformas de streaming, foi ele.
Numa época pós #MeToo e pós confinamentos, mas ainda à espera da verdadeira revolução no que diz respeito ao voyeurismo digital, Soderberg pega em Zoë Kravitz e transforma-a numa personagem que tanto entusiasmaria Alfred Hitchcock, no suspense e paranoia, como Luc Besson, e a sua armada de heroínas (La Femme Nikita; Lucy). E é (também) a sua aura enclausurante cyberpunk, que definitivamente deve na estética ao anime e mangá, que Soderbergh transporta o espectador para o mundo de uma agorafóbica, perita em computação, que analisa a partir da sua casa, em Seattle, fluxos de dados de um servidor ativado por voz chamado Kimi (espécie de Siri ou Alexa), com vista a melhorar o desempenho do sistema de inteligência artificial.
Traumatizada pelo passado, reduzida às rotinas e lutas internas, mas longe da vitimização, Angela depara-se no seu trabalho diário com um áudio onde uma mulher aparentemente é agredida por um homem. É na investigação a esse áudio, e quem é essa mulher, que ela se vê inserida no centro de um furacão conspirativo, recusando neste jogo de forças a catalogação de presa.
Além do ritmo delirante imposto pelo próprio guião, Soderberg imprime no seu trabalho de câmara a energia e fogosidade de um novato, mas com a maturidade e sapiência de um veterano no aplicar dos códigos do cinema de ação com grande sentido de contemporaneidade, expondo assim, não só um projeto explosivo e eletrizante sem necessidade de pirotecnia exacerbada, mas igualmente uma alegoria ao “basta”, ao “fim” de um sistema onde presas e predadores estão definidos e invariavelmente posicionados em cada um dos polos.
A bem da verdade, não há nada de presa na figura de Angela, com o estereótipo do especialista em computação solitário e antissocial a construir-se e desconstruir-se, quer a nível pessoal (no ultrapassar dos demónios internos), quer coletivo (no seu posicionamento na sociedade e luta contra as injustiças presentes nela).
E para contribuir para a elevada aceleração cardíaca, que invade o espectador em escassos 89 minutos, especialmente no seu último terço, Soderbergh alia um trabalho de câmara cru com uma estilização imagética (fotografia, montagem, design de produção, guarda-roupa, caracterização) que nunca se sente como um fast food cinematográfico, construído para saciar o espectador com as calorias vazias do mero entretenimento escapista.
Nota ainda para os vilões do filme, todos eles com o toque Soderberghiano que conhecemos desde “Romance Perigoso“, onde brutidão e o absurdo se conjugam num todo que estranhamente se sente refrescante e absorvedor, mesmo que viajemos por terreno derivativo e repleto de lugares comuns.



















