Fosse todo o filme o que as duas primeiras sequências demonstram e “Morte no Nilo”, nova adaptação do universo de Agatha Christie ao cinema, cumpria com tudo o que o seu realizador, Kenneth Branagh, prometia: um objeto “sombrio, sexy e perturbador.”

A verdade é que começamos esta nova aventura de Hercule Poirot com um preâmbulo a preto e branco que nos leva à Primeira Guerra Mundial, ao terror do conflito, e à origem (razão) do bigode do famoso detetive, passando depois para os tempos mais recentes, já com ele em serviço e onde são introduzidas as personagens interpretadas por Gal Gadot (Linnet Ridgeway), Armie Hammer (Simon Doyle) e Emma Mackey (Jacqueline de Bellefort).

Se o primeiro segmento carrega mistério, numa espécie de “origin story” compactada para mostrar competências e dons de Poirot para contextualizar a sua figura, o segundo cimenta o papel do suspense e fornece uma enorme dose de sedução e carnalidade que irá se desvanecendo à medida que entramos no Egipto. Contribui para isso toda artificialidade das locações (digitais, como mandam os novos tempos) e o design de produção, que fazem o filme perder impacto e afastam qualquer sensação de realidade.

Na verdade, este já era um problema que sentia no primeiro filme, mas aqui acentua-se pelo maior uso de exteriores, além de mais um meio de transporte (do comboio para um barco) onde o crime e investigação vai decorrer.

Se Gadot acrescenta doses de sensualidade a qualquer produção que participe, a verdade é que por aqui é eclipsada, a todos os momentos, por Emma Mackay, que depois de nos conquistar em “Eiffel”, brilha e é o centro das atenções por aqui.

Também soam artificiais alguns momentos do filme, com a clara sensação de existirem cortes de produtor pelo meio para apressar os eventos. Exemplo disso é uma sequência numa pirâmide, onde após uma tentativa de assassinato e a chegada de uma tempestade de areia, saltamos a correr para sequências de ação exclusivamente passados no barco, onde são as prestações de nomes como Annette Bening, Letitia Wright e, principalmente, Sophie Okonedo os focos de maior luz.

O resto é gímnica e truques narrativos que muito devem ao trabalho de Agatha Christie, com Branagh a cumprir na realização a transposição desse universo para o cinema sem nunca deslumbrar. Fica na retina e memória a dança no início entre Mackey e Hammer. Se todo o filme tivesse essa coragem e sedução, seria certamente um objeto brilhante.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
morte-no-nilo-um-regresso-morno-ao-universo-agatha-christieFosse todo o filme o que as duas primeiras sequências apresentaram e “Morte no Nilo” seria muitos furos acima do esperado