O peso do luto, o fardo de uma ferida inultrapassável, com impacto no passado, presente e futuro, sente-se em todos os escassos 75 minutos de “Cette Maison”, longa-metragem de estreia da canadiana Miryam Charles, exibida na secção Fórum da Berlinale 2022 e com estreia marcada em Portugal para o IndieLisboa.
Já com inúmeros trabalhos na direção de fotografia e realizadora de curtas-metragens experimentais, Charles embarca numa viagem tão estilizada como austera para contar uma história de dor de uma mãe que perdeu uma filha. Tessa (Schelby Jean-Baptist) é encontrada enforcada no seu quarto em Bridgeport, Connecticut (EUA), mas a autópsia revela que se tratou de um assassinato. É Valeska (Florence Blaine Mbaye), a sua mãe, que deve seguir em frente com a vida, mas a filha permanece ao seu redor numa jornada elíptica onde o tempo e o espaço se apresentam de forma críptica e evocativa, adicionando camadas de reflexão. Meditação que prossegue, num segundo nível, no conceito e definição de lar, onde as feridas coloniais vêm também ao de cima e surgem como segunda dor.
Ambicioso e complexo, embora austero e imperfeito, “Cette Maison” é inspirado na morte de um primo da cineasta e da resiliência da mãe que vive com esse fardo. O filme carrega em si uma alma torturada pela injustiça, a pessoal e a coletiva, e uma dúvida na definição do espaço e na continuidade do tempo.
Curiosamente, nessa indefinição de espaço e “lar”, percebe-se ao olhar para este filme a razão porque o também cineasta canadiano Félix Dufour-Laperrière se encontra aqui como produtor, pois já no seu recente filme, “Archipel”, ele aborda alguns desses conceitos identitários, numa análise entre geografias reais e imaginárias, tendo como tabuleiro do seu jogo o Québec, entre o passado colonial e o presente territorial.



















