É entre animação e documentário, imagens de arquivo manipuladas e outras mais recentes, ficção e real, sonhos e dúvidas, que o cineasta canadiano, Félix Dufour-Laperrière, sempre acompanhado por um duo que não se atropela na narração, constrói um ensaio intelectual de rara beleza e criatividade que invade geografias reais, mas simultaneamente imaginárias.

Com uma enorme espessura poética e carga filosófica nas imagens, sons e palavras, o autor que uma vez disse que “aspira a um cinema que flerta com a arte contemporânea e que exige literatura” funde neste “Archipel” dois mundos que conhece bem e que continua a experimentar e explorar. De um lado o documentário, que materializou com mestria em “A Transatlantique” (2012), do outro a animação, com que brilhou em “Ville Neuve” (2018).

Nesta jornada pela sua província natal, o Québec, que passou por momentos chave de escolha, nos anos 1980 e 1990, na forma de referendos, sobre os anseios pela independência, Félix Dufour-Laperrière – seguindo a longa tradição do seu país em ambas as formas (animação e documentário) – segue rio (São Lourenço) acima e abaixo a construção concetual e designatória de espaços, fronteiras e territórios, colocando para reflexão o termo “comunidade”, sempre com espaço para revelar em si a presença de uma identidade fragmentada construída e moldada pelo tempo. Por isso mesmo, “Archipel” parece caminhar por um limbo, uma corda-bamba, como o desabafo de alguém que apesar de sentir-se totalmente parte do Canadá, simultaneamente distingue-se e afasta-se dele, desafiando conceitos e linhas territoriais artificialmente instituídas.

Há de tudo um pouco nas técnicas de animação aplicadas, do scratch ao pastel, passando por colagens e rotoscopia, afastando-se Félix Dufour-Laperrière do registo monocromático de “Ville Neuve” com explosões de cor que ajudam a intensificar os contrastes entre o natural e artificial, sendo o exercício da memória e a perceção de todos os elementos, verdadeiros motores que não se cansam de aplicar rotações para esse fim.

Já na vertente de imagem real, o jogo entre imagens do passado e presente, onde o preto e branco histórico se alinha com as cores vívidas da beleza natural do agora, seguem a mesma linha de pensamento de um objecto fílmico extremamente denso que merece/exige um segundo e terceiro visionamento.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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