Existe uma ala de pensamento em Hollywood (e no marketing) que acredita que, nesta guerra de “conteúdos”, onde as plataformas de streaming tornaram-se o espaço de eleição para o público ver filmes, a solução é voltar ao cinema pipoca dos anos 90, como se as salas fossem encher miraculosamente.
Por isso mesmo, hoje em dia temos o regresso e aposta em títulos como o catastrofista “Moonfall” de Roland Emmerich, e este “355”* de Simon Kinberg, que com uma roupagem contemporânea serve ao espectado velhos formatos de ação sob a forma de narrativa derivativas de espionagem internacional, onde reinam sequências de ação mundana e relações primárias em torno de amizade, amor e traição.
“355” é assim um produto de outros tempos adaptado aos novos, com uma crise internacional em vista e grupo de heroínas, com as mais diversas vivências e origens, a terem de se juntar para lutar contra um perigo real movido pela mais básica ganância. Na verdade, “355” é um “Kingsman” que se quer levar a sério, ou se preferirem, devido à sua abordagem e centro no feminino, um “Anjos de Charlie”, “Assassinas Profissionais” ou “Oceans 13” (versão 2018) numa narrativa à la James Bond, onde a binariedade dos bons contra os maus apenas é capaz de gerar um produto escapista esquecível. A verdadeira razão porque o filme atrai à primeira vista é o seu elenco, repleto de carisma, charme e potencial dramático. Tudo o resto é desculpa.
No centro da história está Mace Brown (Chastain), um agente da CIA encarregada de recuperar um disco rígido de um antigo agente, Luis (Édgar Ramirez). É em Paris, na tentativa de resgate desse disco, que Mace e o seu parceiro, Nick (Sebastian Stan), falham a missão, isto porque uma agente alemã, Marie (Kruger), se mete pelo caminho. Voltas e voltas, aquilo que esperávamos desde o primeiro minuto acontece. Mace e Marie unem-se, juntamente com a agente britânica Khadijah (Nyong’o), a colombiana Graciela (Cruz) e a agente chinesa Lin Mi Sheng (Fan) para recuperar o disco e evitar o desastre. É tão simples como isto.
O que se segue, no meio de aventuras e desventuras, é uma amálgama de situações déjà vu, todas elas pastiche de qualquer enésimo filme de ação pouco gráfico (a classificação etária assim o obrigava) que enche as televisões e plataformas de streaming. Mais problemática que a história e personagens previsíveis, é a realização de Simon Kinberg, que depois de não ter dado bons sinais de autoralidade em “X-Men: Dark Phoenix” volta aqui a pecar por uma verdadeira marca distinta do produto banal vendido por atacado. Nas sequências de luta, ainda que coreografadas, reina a confusão e a descrença, e nas perseguições e muitos tiros sobrevive a previsibilidade. A componente de drama, especialmente em torno de Graziela, mas genericamente em todas as mulheres em cena, é reduzida a diálogos pouco construídos e emoções corriqueiras que circulam em torno da perda, levando o espectador à milhenta cantiga com o mesmo refrão.
No final, vive um filme de domingo à tarde. Um filme de shopping. Para ver, esquecer e passar a outro. Mas os tempos mudaram e num produto que se quer cinemático para os novos tempos de entretenimento em todo o lado, “355” não tem qualquer mais valia além do seu elenco. E nesse terreno, o streaming concorre de olhos fechados.
*O termo 355 é inspirado no cognome da primeira espia feminina de George Washington, que durante a Guerra da Independência, desempenhou um papel importante na detenção do major John André (que era por sua vez um espião ao serviço do exercito britânico)

















