A imagem de Paris, longe dos subúrbios, tem tendência no cinema para o cartão-postal. Essa imagem foi abalada – principalmente – em 2020 com o documentário “Un pays qui se tient sage“, de David Dufresne, que pega no aumento insatisfação com as injustiças sociais – La Rage, como diria a marselhesa Keny Arcana – que geraram inúmeras manifestações civis, e convida os cidadãos a aprofundar, questionar e comparar os seus pontos de vista sobre a ordem social e a legitimidade do uso da violência pelo Estado, em particular pela polícia gaulesa, que acumula casos de repressão à margem da lei.
Sempre com um ritmo e envolvência de alto calibre, chamando ao espectador um ping pong de ideias que fomentam a reflexão e o pensamento crítico, Dufresne mistura imagens cruas e muitas vezes caóticas com outras sustentadas por palavras e pensamentos, onde ação, meditação, imersão e distanciamento conjugam-se para um dos documentários mais importantes de 2020.
“Max Weber dizia que ‘o estado reivindica por conta própria o monopólio da violência física legítima’. A palavra importante é ‘reivindicar’. A essência de uma reivindicação é que nela há discussão.“, explicou Dufresne sobre a temática do seu filme, acrescentando: “Onde é que a polícia obtém a sua legitimidade? E por quanto tempo e com que critérios?“. Temas para nos afundarmos em toda a sua complexidade.
Um objeto que sequestra o espectador durante a sua duração e persegue os seus pensamentos até muito depois.

















